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VELHA GOA

VELHA GOA

  • Local: velha goa
  • Categoria:
  • Visita: 11 Oct, 2015

Velha Goa é, em boa medida, um mistério.
Encanta pelo mito, pelo lado maldito da sua história de paradoxos invocados pela serena majestade da ruína.
Já muito foi dito sobre o que possa fundamentá‑lo, mas no fundo tudo se pode resumir a uma frase: Goa, capital do Estado da Índia ou do Império Português no Oriente, não foi, não podia ter sido ali uma cidade feliz, mas Velha Goa é‑o enquanto resíduo monumental e de memórias.
Só por si Velha Goa invoca toda essa história, cujos inúmeros dados estão dispersos pela imensa bibliografia, documentação e iconografia disponível.

O sítio é um denso palmeiral, ondulando sobre uma topografia animada que desce em concha para os antigos terreiro e ribeira sobre a margem do Rio Mandovi.
A zona central, onde se concentra um maior número de edifícios da antiga cidade – esmagadoramente igrejas e conventos – é mantida como uma ampla esplanada cujo tratamento urbano, devido a uma ação programada em 1959, pouco ou nada herdou do primitivo tecido viário. Mesmo assim, vistos à distância, os edifícios com dimensão para tal emergem da efusiva mancha verde que, nas horas em que o sol roda mais a pique, a atmosfera quente e húmida carrega de turvação e filtros.

“Seis templos alvejando entre palmares” segundo Tomás Ribeiro (1831-1901), citado no relatório, publicado em 1960, de uma ação integrada nas Comemorações Henriquinas, referenciado na bibliografia.

A paisagem da Velha Goa é isso: um conjunto de igrejas desejávelmente brancas plantadas no meio do exuberante verde tropical.
Tal como hoje, pela qualidade, escala e quantidade, os edifícios religiosos foram sempre a pedra de toque do urbanismo de Goa, da sua existência e materialidade.
Foi o que marcou a sua imagem e pautou o seu desenvolvimento, o que retardou ao extremo a mudança da capital para um sítio mais conveniente, o que persistiu quando a cidade foi abandonada e condenada a desaparecer sob a floresta, o que a nova capital, Pangim, não pôde atrair, ficando assim privada de monumentalidade.

Em Velha Goa, além dos edifícios religiosos pouco mais é hoje identificável e visível da desaparecida Goa, que frequentemente mereceu o epíteto de Roma do Oriente.
Na realidade, a mudança oficial da capitalidade de Goa para Pangim (1843) – ainda que sob a fórmula simpática de uma Nova Goa que englobava ambas e Ribandar – só ocorreu após a extinção das ordens religiosas no espaço português (1834), ordens que desde sempre se haviam oposto e resistido a essa mudança, pois há relativamente pouco tempo tinham investido em instalações por regra sumptuosas.

Mas a sua consubstanciação como “cabeça e assento principal do estado que nas partes do Oriente tem a Coroa de Portugal” e “empório e feira Universal de todo Oriente” (Livro das Cidades e Fortalezas…, 1582) pela década de 1530 e, assim, muito pelo longo governo de Nuno da Cunha (1529‑1538), não ocorreu segundo desígnios do padroado (também ainda em consolidação), mas por razões geoestratégicas, onde o trato (o comércio e as suas rotas marítimas) teve um papel relevante, e também por necessidades de ordem militar e uma nova orientação territorializante para todo o mundo português, a qual apenas se viria a fazer notar algumas décadas depois.

A conquista de Goa ao sultanato de Bijapur foi um dos principais objetivos da governação de Afonso de Albuquerque (1509‑1515), durante a qual o espaço português na Ásia se alargou bem para lá do domínio inicial sobre a costa do Malabar. O seu empenhamento e mecenato não deixam dúvidas para o facto de, pessoalmente, a pretender desenvolver como sede do poder português no Oriente.
Foram necessárias duas tentativas para a conquista.
A primeira ocorreu a 17 de fevereiro de 1510, e teve como primeira reação apenas uma pequena escaramuça em Pangim. Tomou‑se e ocupou‑se a medina, mas uma vez cercados pelas tropas bijapuris que ali acorreram, em 31 de maio os portugueses acabaram por retirar para a frota que, entretanto, ficara retida pela monção e assim sujeita a permanentes ataques.
Só em meados de agosto puderam fazer‑se ao mar.
Regressaram no dia 25 de novembro, dia de Santa Catarina de Alexandria, e em poucas horas retomaram a cidade, ocupando‑a com uma atitude diversa, ou seja e fundamentalmente, não só provendo a sua defesa como expulsando todos os muçulmanos e confiscando os seus bens.
Voltariam para recompor a dinâmica mercantil da cidade‑porto, mas já sem o desígnio de apoiar uma retoma bijapuri.

O enorme esforço defensivo passou por um considerável volume de obras de engenharia militar.
Só assim se logrou resistir à reação bijapuri, mas foram precisas décadas para se conseguir respirar um aceitável ambiente de segurança na ilha e adquirir soberania estável sobre os territórios envolventes, as Velhas Conquistas (1543).

Em tudo foi valendo o envolvimento dos sultões de Bijapur nas lutas intestinas, no interior do Decão, do cindido sultanato de Bahmani.
Apesar de uma pequena medina, Goa era a segunda cidade e o principal porto bijapuri, tendo sido fundada precisamente quando a Ilha de Tiswadi, onde se situa, passou a integrar a soberania muçulmana de Bahmani em 1469.

A antiga capital do território, Goa Velha, situava‑se do lado sul da ilha, nas margens do Rio Zuari.
O local para a nova cidade fora escolhido por um soberano do interior para uma cidade de pequena ou média dimensão. Tinha como guarda avançada algumas estruturas fortificadas junto à barra do rio, sendo que em Pangim também já existia uma pequena casa palatina. Contudo, a principal defesa de Goa para os ataques do mar era a distância à barra de mais de uma dezena de quilómetros. Já a defesa de terra era difícil – obviamente irrelevante para os bijapuris, mas crucial para os portugueses – pois necessitava de dispositivos consideráveis, em especial em passos como o de Benastarim, que só foi conquistado dois anos após a conquista da cidade, assim se estabilizando o domínio sobre a Ilha de Tiswadi.

A localização de Goa era, pois, contrária aos mais elementares princípios habitualmente seguidos pelos portugueses, que procuravam sítios junto ao mar, bem defendidos de terra.
Até o porto não oferecia as melhores condições de acesso e fundeamento de frotas, situação que viria a piorar consideravelmente com o crescente assoreamento.
No fim de contas e pela primeira vez, mais que uma cidade‑porto, os portugueses conquistaram uma ilha, um território que poderia vir a funcionar como testa‑de‑ponte para uma outra fase da instalação na Ásia.

Em quase mil quilómetros de costa, Goa era a única porta geográfica franca na cordilheira dos Gates de acesso ao planalto interior, o Decão ou Meseta Indiana.
Ali aportava, entre outros, um intenso e muito rentável tráfego de cavalos provindo da Pérsia, fundamentais para as movimentações bélicas dos exércitos muçulmanos e, essencialmente, para o seu oponente hindu, o reino de Vijayanagar.

Goa tinha, pois, diversos atributos positivos e nada fazia prever a extraordinária explosão urbana que, em algumas décadas, iria sofrer. Até porque, no imediato, o principal centro de operações portuguesas na Ásia continuou a ser Cochim.
Tudo isso para aqui se indiciar porque é que a cidade conquistada acabou por responder mal aos requisitos que o futuro português lhe reservava.

Não era uma cidade nova portuguesa que, como Cochim, Chaul, Baçaim ou Damão, brotara junto a uma preexistente, mas mais próxima do mar.
Isto é, em Goa não se fez uma cidade‑de‑baixo, como naqueles casos.
Era uma cidade conquistada.
São inúmeros os documentos, relatos e relatórios que dão conta e prova dessa má resposta, por vezes em frases tão nuas e cruas quanto esta dos Comentários de Garcia y Figueroa, já em 1617: “el tienpo con evidente esperiencia tiene mostrado quan mala eleçion tuvieron [os muçulmanos], dexando el apazible y saludable sitio de Goa la Vieja”.

As condições sanitárias naturais não podiam ser piores, pois o local era abafado e pestilento, pouco varrido pelos ventos, o que o crescimento demográfico sem infraestruturação só piorou.
A população abastecia‑se em inúmeros poços com águas inquinadas e fazia os despejos onde calhava.
Sobre isso veja‑se, entre outros, o livro de Germano Correia de 1941, no qual recolheu incríveis dados sobre a mortalidade provocada pelas frequentes epidemias de cólera e varíola e o óbito muito frequente de vice‑reis, inquisidores, arcebispos e outros altos funcionários e fidalgos.

Por outro lado, à relativa tolerância religiosa e de costumes implementada por Afonso de Albuquerque, depois negociada e consagrada no famoso e polémico Foral de Usos e Costumes dos Gaucares – o dito Foral Mexia, promulgado por D. João III em 16 de setembro de 1526, mas preparado por Afonso Mexia, vedor da Fazenda da Índia –, seguiu-se um gradual zelo integrista, próprio do adensamento ideológico ocorrido ao longo de Quinhentos na Europa, de que apenas a Inquisição tem servido de emblema.

Como se tudo isso não bastasse, a vitória muçulmana sobre Vijayanagar logo em 1566 fez com que “o nosso Estado [ficasse] mui quebrado, porque o maior trato que todos tinham era o deste Reyno […] e a Alfandega de Goa o sentio bem em seu rendimento de maneira q de então para cá começaram os moradores de Goa a vir a menos”, segundo Diogo do Couto na oitava das suas Décadas da Ásia.

Como cidade Goa teve, pois, uma existência tão esplendorosa quanto fugaz, passível de ser cronografada em cerca de século e meio, a maior parte do qual já em franco declínio.

Quando em 1774 o Marquês de Pombal lançou o plano frustre da sua restauração, já se encontrava praticamente abandonada. Mas, paradoxalmente, a sua monumentalização, produzida através dos grandes conjuntos religiosos, ocorreu a partir das últimas décadas de Quinhentos e, essencialmente, nas primeiras décadas do século seguinte, ou seja, quando a decadência era já tão óbvia quanto irreversível. Irónicamente, a sua ascensão e queda acompanharam as do próprio Estado da Índia, sendo também por isso Velha Goa o seu principal símbolo material.
O desmonte gradual de Goa para se pôr a caminho de Pangim/Nova Goa – de que o relatório‑plano publicado em 1960 e referenciado na bibliografia dá excelente conta – corresponde ao desmonte do Primeiro Império, que sucumbe com a emancipação do Brasil em 1822, dando lugar a um novo baseado em África.
E desmonte é o termo, pois o reaproveitamento dos materiais em Pangim foi generalizado, em especial com o impulso dado pelo vice‑rei Diogo de Sousa, conde do Rio Pardo (r. 1816‑1821).

Para além do erro da escolha do sítio, a cidade bijapuri, cingida por uma cava e muralha com quatro portas (uma para cada ponto cardeal) e perímetro tendencialmente elíptico com um abcesso a nordeste constituído pelo castelo, era muito pequena, sendo que o seu eixo maior (este‑oeste) não chegava aos quinhentos metros e o menor (norte‑sul) teria pouco mais que quatrocentos, a que corresponde uma área de algo em torno de vinte hectares.

O perímetro abaluartado de Chaul, por exemplo, tem cerca de vinte e quatro hectares, o de Damão vinte e cinco, e Baçaim trinta e seis, sendo que neste caso a área efetivamente urbana é de apenas vinte e quatro. Ou seja, Goa conquistada ocupava uma área de cerca de dois terços do que em breve viria a ser a área das principais cidades portuguesas da Província do Norte. Isso para não se comparar com Cochim que, por razões peculiares, tinha uns exagerados cinquenta e quatro hectares de área muralhada.

Morfológicamente, nada leva a crer que a estrutura interna da Goa bijapuri tivesse qualquer matriz geométrica regular, o que inevitávelmente se manteve.
Garcia y Figueroa, que se refere ao todo e não apenas ao núcleo original, é uma vez mais límpido nos seus Comentários… (1617): “la çiudad es toda desordenada, desconpuesta y esparzida, mayormente sus extremidades, con muchos palmares y otros generos de arboles entre los edifícios, con las mas de las calles muy torcidas sin ninguna puliçia ni conçierto, de manera que fuera de lo poco incluso en sus antiguos muros, lo demas tiene mas propria figura de un populoso y gran casar entre arboles que de çiudad ordenada.”

Por paradoxal que pareça, por entre a rica iconografia de Goa não contamos com exemplares que nos permitam ter uma percepção imediata e fiável desse tecido urbano, nem sequer da paisagem da cidade quando tinha vivência urbana. Contingência própria da cultura artística e visual portuguesa anterior a Setecentos, neste caso fatal porque quando aí se chegou já Goa deixara verdadeiramente de o ser.

A gravura inserta no primeiro volume da Civitates Orbis Terrarum (editado por Braun e Hogenberg em Colónia em 1578) é absolutamente fantasiosa até na data (1509).
A imagem de João de Castro no Roteiro de Goa a Diu (1538/1539) é sugestiva mas morfologicamente inútil, tal como a de Jan Huygen van Linschoten (1596) que, para além da falta de detalhe comprovável, se apresenta completamente desproporcionada. Tem, contudo, uma útil legenda e dados importantes sobre os edifícios em si.
Igual problema apresenta a Plantaforma da Cidade de Goa, de O Lyvro da Plantaforma das Fortalezas da Índia de Manuel Godinho de Erédia (c. 1620), mas como tem mais detalhe e é legendada, acaba por ser o melhor instrumento que possuímos para, em conjugação com os levantamentos atuais do pouco que subsiste, perseverarmos numa reconstituição séria do tecido urbano. Complementarmente, o mesmo cartógrafo deixou‑nos duas cartas da Ilha de Goa (Tiwadi) que incluem o traçado do circuito muralhado peri ou suburbano, que se começou a sistematizar na década de 1560. Também o levantamento do existente subjacente nos três planos pombalinos elaborados entre 1774 e 1777 é de uma extrema utilidade, pois dá‑nos com bastante rigor a localização e configuração planimétrica dos já poucos edifícios que então se conservavam.

Para uma pitoresca imagem geral, muito ingénua, distorcida e desproporcionada, mas in cluindo também a muralha periférica, veja‑se a do relatório de António Bocarro e Pedro Barreto Resende de cerca de 1635, retirada do álbum da Biblioteca Pública de Évora para se juntar ao da British Library.
O desígnio pombalino legou‑nos ainda levantamentos detalhados do Paço dos Vice‑Reis e da Inquisição.
Aliás, no que diz respeito à arquitetura desaparecida há muitos materiais de trabalho, entre fotografias antigas, desenhos e gravuras, de entre as quais se destacam as de Lopes Mendes.

O traçado da muralha islâmica é, contudo, fácil de seguir, sendo que ainda subsistem algumas marcas.
Entre diversas medidas imediatas à conquista da cidade, o processo de reforma do sistema defensivo nela integrado passou pelo seu reforço e aumento de altura. Foi também feito um atalho que isolou o espaço ocupado pelo castelo.
Era uma estrutura situada no extremo nordeste do perímetro urbano, posição da qual dominava o terreiro que mediava entre o perímetro muralhado e o porto, uma espécie de Terreiro do Paço então, e como o de Lisboa, em formação.

Os trabalhos foram dirigidos pelo mestre de obras Tomás Fernandes e descritos com bom detalhe nas obras de Gaspar Correia e Fernão Lopes de Castanheda que, contudo, têm sido interpretadas no sentido de uma renovação em tábua rasa do espaço urbano, o que não é verosímil.
Não só não era razoável, como não ocorreu em qualquer outro caso conhecido nem a resultante, como já se referiu, pode ser lida como algo de planeado. A única zona onde terá havido alterações de monta, inclusive no percurso amuralhado, foi a frente ribeirinha, precisamente aquela onde as muralhas eram mais fracas.

A exemplo do novo castelo e como foi corrente em todas as conquistas portuguesas desde a formação da nacionalidade no século XII, as principais estruturas edificadas foram reabilitadas e refuncionalizadas, sendo particularmente expressivo o caso da igreja do Convento de São Francisco que, diz‑se sem qualquer evidência material ou documental, foi materializada sobre uma antiga mesquita.

Residencialmente, os portugueses instalaram‑se um pouco por toda a cidade, mas como é óbvio ocuparam essencialmente casas deixadas vagas pelos muçulmanos que, como grupo dominante e de mercadores, eram as melhores. Aliás, e à imagem do que sucedeu um pouco por todos os núcleos urbanos portugueses no Oriente, as áreas residenciais foram‑se caracterizando e apartando mais por confissões religiosas do que por etnias, sendo contudo certo que a separação entre reinóis e cristãos da terra também se fazia notar.

O principal eixo viário, quer em termos morfológicos, quer do ponto de vista da vivência, era a Rua Direita, a qual ao longo de cerca de meio quilómetro ligava as principais portas da muralha islâmica, cada uma com os seus largos ou terreiros interior e exterior: uma, a do Cais ou da Fortaleza, dando para o terreiro onde existia o principal cais sobre o rio, que em 1597 foi reformada em Arco dos Vice‑Reis; e a oposta a sul, a dos Baçais (mercado do gado) junto à qual, pelo interior, surgiram a Igreja e a Capela da Misericórdia, que dava nome ao largo, a Igreja de Nossa Senhora da Serra, com o seu recolhimento, e o Bazar Velho, um conjunto de 48 boticas com projeto unitário em quadra, uma espécie de mercado inspirado nos fonduks islâmicos, senão mesmo o reaproveitamento de um.

Do lado de fora da muralha islâmica ficava o Largo do Pelourinho Velho, pois acabou mudado para um pequeno largo situado umas duas centenas de metros a sul.
Naquele largo confluíam sete arruamentos.
Era a encruzilhada onde o crescimento fora da medina de Goa se amarrara, substituindo ou representando a centralidade do núcleo islâmico inicial.

Regressando ao interior, importa registar que a Igreja de Nossa Senhora da Serra foi fundada em 1513 por Afonso de Albuquerque, no cumprimento de um voto feito em ocasião de apuro no Mar Vermelho, e durante meio século serviu de panteão ao próprio fundador. Foi implantada sobre a porta principal da muralha muçulmana, sendo por isso dotada de uma torre que podia ser usada como infraestrutura defensiva.
Subsistem alguns elementos da capela‑mor, que ainda desempenham funções cemiteriais.

A Rua Direita era também designada como Rua dos Leilões, sugestiva invocação da intensa atividade comercial que ali se desenrolava. A pretensa uniformidade da arquitetura que a ladeava, baseada na representação de um pequeno troço, precisamente o do Largo da Misericórdia, inserto na obra de Jan Huygen van Linschoten (1596), é desmentida por outros relatos e até pelo único vestígio que dela subsiste, uma porta de moldura com o recorte e gramática decorativa dita manuelina, a qual terá sido a entrada da Casa da Bula da Cruzada.

A axialidade e a relevância urbana induzidas pelo seu topónimo, recorrente nas cidades portuguesas, não se traduziam numa estruturação urbanística regular nas ruas que, de um e de outro lado, se abriam, aliás nenhuma em ângulo reto ou sequer repetido.

Sensivelmente a meio da Rua Direita, uma dessas aberturas não era mais do que uma passagem para poente, que conduzia à praça conhecida como Terreiro do Sabaio, onde em 1514 se ergueu a Matriz de Santa Catarina, com fachada orientada a norte; foi elevada a catedral com a criação do bispado em 1534 e depois substituída pelo majestoso edifício hoje existente – então orientado a nascente – obra iniciada em 1564, mas que se prolongou até 1652.
É o maior templo jamais construído pelos portugueses em todo o império e tem anexo o Paço dos Arcebispos, situando-se por trás do conjunto o complexo franciscano, as primeiras instalações de uma ordem religiosa na cidade, com as teatinas únicas dentro da medina.
Para a mesma praça davam, a norte, a Casa da Câmara e o Estanco Real dos Tabacos, e a Inquisição a sul, o que fazia desta praça um verdadeiro pólo institucional no centro da ex‑medina bijapuri.

A Inquisição ocupou o edifício que inicialmente serviu de residência aos vice‑reis e governadores, o qual já fora palácio do sultão de Bijapur e era conhecido como o Paço do Sabaio.
Também o Terreiro dos Vice‑Reis, interior à porta onde rematava a norte a Rua Direita, conduzia, desta vez a nascente, ao acesso corrente ao Palácio dos Vice‑Reis ou Paço da Fortaleza, pois o solene veio a ser uma escada que subia diretamente do terreiro do cais do lado poente da porta da muralha. Paço que resultou de uma profunda reforma, empreendida em 1554, no castelo mandado erguer por Afonso de Albuquerque sobre o palácio do Hidalcão, do qual se conservam, montadas, as molduras de um portal.
Como se poderá acompanhar na entrada que a esta se segue, a defesa de Goa passara a processar‑se num arco territorial mais vasto, de cerca de quinze quilómetros de perímetro, o que tornou obsoletas as estruturas defensivas baseadas na muralha urbana de origem muçulmana e integrou uma série de conjuntos religiosos, pequenos núcleos proto‑urbanos ou conjuntos edificados de que o desenho sobre fotografia de satélite que juntamos dá boa conta.
Já então o casario, aproveitando‑se, fazia submergir esse muro dentro de si.
Do lado sul daquele terreiro ficava o tronco, sendo que numa rua a poente se localizava uma outra dependência judiciária, o aljube, desta vez para o clero.
Também o Tribunal da Relação abria para o Terreiro dos Vice‑Reis, que no seu limite nascente viu ainda surgir um pouco mais tarde o complexo teatino de São Caetano com a Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência, a qual ainda existe.

Ao longo da Rua Direita, mais precisamente nos dois terreiros dos seus extremos e com a extensão para o Terreiro do Sabaio, encontrávamos pois toda a base institucional da cidade e do Estado da Índia.
A via era obviamente herdeira do souk islâmico, tendo provavelmente sido reformada com o domínio português. E aqui é necessário fazer notar como se verifica uma primeira adaptação com indícios de ter seguido o que, cerca de dois séculos antes, havia sido comum na reocupação da soberania cristã dos atuais territórios português e espanhol, ou seja: ocupação racional dos principais pontos e edifícios com os novos equipamentos e símbolos do poder, mas obliterando o menos possível o edificado; sujeição do tecido urbano a uma reforma que eliminou os impasses, transformando os adarves e becos sem saída (de que carece a vivência islâmica do espaço residencial) em ruas.
Porém e com o tempo, muito provavelmente parte das próprias habitações sofreu reformas consideráveis, mudando-se a estrutura da casa‑pátio para o lote de tipo europeu, com casa à frente e logradouro/quintal atrás.
Entre outros, Linschoten deixa‑o bem claro quando descreve: “A cidade é bem coberta de construções, com casas e ruas à maneira portuguesa, porém um pouco mais baixas, devido ao calor. De modo geral todas têm os seus jardins e pomares atrás das casas, cheios de todo o género de frutas indianas.”
Tudo numa arquitetura corrente de síntese das culturas em presença em que, segundo descrições e a iconografia, a casa tipo era de dois pisos, construída em argamassa de cal e areia, coberta com telha e frequentemente pintada com aguadas de vermelhos e brancos. Disso é Pyrard de Laval quem, na primeira década de Seiscentos, melhor nos dá conta.
Nas fachadas pontuavam as janelas protegidas por grades e gelosias, no piso superior os balcões em muxarabi. Conchas de ostras polidas, carepas, cumpriam as funções do vidro. Importa, porém, fixar que terão sido essas alterações – de certa forma cirúrgicas, mas que no conjunto confeririam à medina um ambiente global de estaleiro – que, com as reformas na muralha e a reestruturação do castelo, levaram cronistas como Gaspar Correia e Fernão Lopes de Castanheda a relatar uma adaptação profunda que por alguns tem sido lida como uma razia seguida da construção de uma cidade nova, moderna ou manuelina. Seria algo nunca visto nem experimentado e que é desmentido pela morfologia urbana remanescente, que não indicia qualquer tipo de ordenamento regular dentro da ex‑medina bijapuri. No fundo, em Goa fez-se o que sempre se havia feito em situações similares na história, então recente, do urbanismo medieval meridional europeu. Inicialmente Goa era estrutural e urbanisticamente uma cidade medieval, o que o seu crescimento só confirmou.
A propósito, importa ainda referir a bem conhecida aplicação a Goa de todas as regras, regimentos, ordenações e benefícios comuns a Lisboa. De facto, em todo o universo português nunca duas cidades tiveram simultaneamente em comum tanta coisa, ou não fossem no sistema do Primeiro Império funcionalmente o complemento uma da outra.

Tal como em Lisboa, mais do que a sistematização ou reforma de novos equipamentos urbanos, foi a gradual uniformização da arquitetura corrente por via regulamentar o que dotou Goa de uma unidade à portuguesa. E, claro, há sempre aquela referência ao número de colinas e aquela equívoca frase feita, segundo a qual “quem viu Goa não precisa de ver Lisboa”. Relevante é o facto de duas ou três décadas depois (1550-1560) se ter iniciado uma renovação quase sistemática dos equipamentos ordenados por Afonso de Albuquerque, o que produziu uma nova e talvez mais profunda transformação da malha urbana. Por exemplo, a transformação do castelo em palácio, do palácio em Inquisição, da velha Matriz de Santa Catarina na majestosa e enorme Sé Metropolitana, do primitivo e modesto convento franciscano na grande estrutura ainda existente, terão implicado processos de demolição maciça de casario anexo, isso para além de alterarem indelevelmente a paisagem e os referentes urbanísticos.

Como acima se foi referindo, esta segunda reestruturação foi iniciada a par com o declínio comercial e urbanístico da cidade, quando o erro da escolha do local se começou a tornar epidémicamente evidente.
A cidade crescera rápidamente para fora da ex‑medina islâmica, o que ocorreu estruturalmente segundo dois desígnios.
O primeiro, essencialmente utilitário, ribeirinho e de iniciativa (vice‑)régia e/ou municipal, caracterizado pela infra estruturação portuária, levou à construção da alfândega junto ao rio no terreiro frente ao paço, o que desde logo faz lembrar o modelo lisboeta do Terreiro do Paço anterior à reconstrução pós‑terramoto de 1755.
Relação intensificada com a construção de um baluarte dentro do rio, no término de um trapiche (cedo desaparecido), a instalação da praça‑mercado (bazar) a nascente e do Cais dos Vice‑Reis (outra ponte‑trapiche) e da Ribeira das Naus (tercenas, estaleiro naval, arsenal, cordoaria, etc.) a poente, ou seja, nos dois últimos itens em posição invertida relativamente ao arquétipo lisboeta.
Acrescente‑se a isso, a poente e sul dos estaleiros, as casas‑oficina do vedor da fazenda, do guarda e do patrão‑mor do porto, bem como a fundição, a casa da moeda e o famoso Hospital Real de Todos os Santos (como o do Rossio de Lisboa).
É ainda possível estabelecer um paralelo entre as praças‑logradouro de acesso comum de ambos os paços, o Terreiro dos Vice-Reis em Goa e a futura Praça da Patriarcal em Lisboa, as quais eram um complemento funcional essencial dos terreiros de representação.

Sobre o rio, mas em local manifestamente inconveniente, porque a montante da cidade, instalaram‑se as alcaçarias (neste caso curtumes), o que contribuía para o incremento dos problemas sanitários. Imediatamente a nascente do paço ficava, entre outros diversos equipamentos urbano‑portuários, a Casa do Peso.
É na estruturação urbanística da zona em ensanche a poente do terreiro do paço, ou seja, a ribeira, que na iconografia se torna suspeita uma estruturação portuguesa do espaço sob um desígnio de ordem e regularidade, o que é absolutamente comum em todo o urbanismo português coevo.
Hoje apenas aflora à superfície um longo muro, que será o remanescente da vedação que encerrava os estaleiros e arsenal.

O outro desígnio, desta vez religioso e monumentalizante, influenciou o espalhamento da urbe por toda a área não ribeirinha em redor da ex‑medina e, significativamente, teve o seu início logo na ordem para a construção da Capela de Santa Catarina, junto à face exterior da porta da muralha (a da Ribeira) que servira de acesso à vitoriosa horda conquistadora portuguesa no dia de Santa Catarina de 1510. Curiosamente, o muro existente imediatamente a nascente da capela segue o traçado da antiga muralha islâmica.
Quase simultânea foi a ordem de Afonso de Albuquerque para a construção da ermida que, três décadas depois, deu lugar à Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Está no ponto topográficamente mais eminente das então imediações da cidade e, aliás, foi dali que Afonso de Albuquerque comandou o assalto.
Ainda hoje marca o início do espaço da cidade, numa posição de atalaia para quem vai subindo o rio. Essa elevação adquiriu a designação de Monte Santo, o que decorre do facto de, em torno de dois enormes terreiros – de Santo Agostinho e de Santo António – ali se terem vindo a instalar um número considerável de conjuntos religiosos como, aliás, em parte se pode ver no mapa junto.
Ali, por exemplo e na versão Velha Goa, encontramos as ruínas do Convento da Graça e do Colégio de Nossa Senhora do Pópulo dos agostinhos, apenas o fantasma do Colégio de São Paulo‑o‑Novo ou de São Roque dos jesuítas, a Capela de Santo António e, também, o dos hospitalários de São João de Deus, hoje um lar para idosos, e o gigantesco Convento de Santa Mónica, o único feminino em todo o Oriente português.
Outros conjuntos religiosos ocuparam rápidamente as demais elevações em redor da antiga cidade muçulmana, o que foi direcionando, sem regra explícita e, assim, menos ainda ordenada, o crescimento urbanístico, mas matizando a paisagem num sinal normalmente tido como barroco.
Por exemplo, o ponto mais elevado ainda hoje tem como remate a Capela de Nossa Senhora do Monte. Ao invés, e como por entre as colinas há, necessáriamente, vales, também estes foram ocupados por estruturas religiosas.
Significativamente, sucumbiram mais rápidamente que as demais, o que terá como principal justificação o facto de estarem em posições sanitáriamente ainda mais negativas.
Foi, por exemplo, o que sucedeu à enorme estrutura jesuíta do Colégio de São Paulo, ao Convento de São Domingos ou ao Convento dos Carmelitas Descalços, ambos localizados no lado oriental da cidade, documentadamente o mais flagelado pelos frequentes surtos epidémicos.
Para além do pano da fachada, deste colégio jesuíta conserva-se ainda a Capela de São Francisco Xavier, outrora situada na sua cerca, bem como vestígios da fachada e altar dos carmelitas.

Para essa catastrófica situação sanitária contribuía uma lagoa implantada segundo um eixo nordeste‑sudeste, cuja extremidade urbana quase irrompia pelo Largo do Pelourinho Velho onde, entre outros, se localizava o açougue e o acesso à porta que conduzia no interior da medina à Rua Direita.
A lagoa era ladeada, em ambas as margens, por vias que conduziam ao campo, as ruas de São Tomé e da Trindade.
A primeira, depois de passar pelo Colégio de São Paulo, pela Igreja de São Tomé e pelo lazareto, conduzia ao passo de Benastarim;
a segunda era marcada pela igreja, erguida por ordem do arcebispo sobre um templo hindu mesmo no final do século XVI.
No início, a Rua de São Tomé era conhecida como Carreira dos Cavalos, o que corresponde a um tipo urbano habitual nas cidades portuguesas medievais e de então.

Caminhando por fora da medina para poente, num outro largo surgia o imponente conjunto jesuíta do Bom Jesus, que ainda atualmente é uma das principais atrações de Velha Goa por conter o túmulo de São Francisco Xavier, o maior magnete de peregrinação católica da Ásia.

Mais para nascente, do sítio do Largo do Pelourinho Velho, verdadeira rótula viária de Goa, sai ainda hoje a Estrada da Luz que, passando pelo Pelourinho Novo, conduz ao que foi o grande largo periurbano, um rossio, de Nossa Senhora da Luz. Dali se acedia em rampa ao Convento da Cruz dos Milagres dos oratorianos, mas também ao hinterland goês, bifurcando para Moulá e Talaulim.
A urbe terminava ali, ainda que a nova e extensa fortificação perimetral iniciada na década de 1560, de que dá boa conta o mapa sobre fotografia de satélite anexo, tenha fixado um perímetro urbano bem mais vasto.

Cronológicamente e, assim, conceptualmente, o início do processo para a construção desse novo cerco coincide com o início da fase de monumentalização do tecido urbano preexistente e a dinamização do crescimento já acima por demais referenciados, tudo através de programas arquitetónicos religiosos de aparato. Paradoxalmente, estava‑se também a entrar no período do declínio.
A definição do novo perímetro, cujo traçado foi determinado por razões de lógica defensiva – essencialmente aproveitamento de estruturas anteriores e, ligando passos, de situações topograficamente mais favoráveis – teve também como efeito uma ainda maior descompressão do centro urbano, permitindo aos cidadãos ir habitar longe do pestilento centro, com a falível sensação de proteção conferida pela muralha.
Perímetro que incluía algumas fontes de água potável, como era o caso da Fonte de Banguinim, que chegou a ser canalizada para o centro da cidade.

De entre tudo tem especial expressão o número de estabelecimentos religiosos. No núcleo propriamente urbano, a vasta ação de monumentalização ocorre obviamente no período e sob os desígnios propagandísticos da Contra‑Reforma, tendo, entre alguns outros, sido marcante o papel de Frei Aleixo de Meneses (1559‑1617), arcebispo de 1595 a 1612, vice‑rei da Índia entre 1607 e 1609, presidente do Conselho de Portugal na corte filipina e, ainda, vice‑rei de Portugal em Lisboa entre 1614 e 1615.
Não se lhe devem todas as iniciativas, mas essencialmente a grande dinâmica que estabeleceu e que conduziu à exagerada fórmula de Goa como Roma do Oriente, o que dele faria o respectivo Sisto V. Mercê dos seus cargos e boa cotação junto da corte conseguiu libertar meios suficientes para produzir uma animação paisagístico‑urbanística, já de esboço barroco, na capital do Estado da Índia Portuguesa.
Diga-se ainda que a sua ação apostólica se estendeu a todo o estado, com particular relevância para as suas visitas à Província do Norte. Como no território europeu, mas aqui com expressões e dimensões nunca atingidas em qualquer outro ponto do império, o aumento de escala e esplendor da arquitetura religiosa era entendido como um elemento essencial no combate à heresia que, para além do mais, aqui dispunha de arquiteturas de grande impacto e qualidade.
É quase só parte desse programa arquitetónico o que constitui e se visita em Velha Goa, sendo ainda importante fazer notar como se tornara impossível para qualquer ordem ou congregação religiosa não ter uma casa em Goa. De facto, são muito raras as exceções. A descrição que acabo de fazer, apesar de longa não é, de forma alguma, exaustiva, tendo apenas como modesto objetivo dar uma ideia ao leitor da complexidade e organicidade da estrutura urbana de Goa e, assim, permitir‑lhe uma melhor leitura de Velha Goa. Como não é demais repetir‑se, são múltiplas as descrições de Goa, e os guias de Velha Goa – de entre os quais destaco o contido no livro De Goa a Pangim… de Pedro Dias (2005) – mas mesmo assim é demorada a apreensão da realidade desaparecida da primeira, que é absolutamente necessária à compreensão cabal da segunda. Para tal ajudarão muito as entradas que se seguem. Restam‑me agora duas pequenas referências a assuntos que também surgem em outros textos deste volume, o primeiro relativo à mudança da capital para Mormugão, o outro respeitante ao frustre plano pombalino de restauração. O primeiro caso arrastou‑se entre as últimas décadas do século XVII e as primeiras décadas do seguinte. Chegou‑se a fazer obra, a desmontar alguns edifícios de Goa para ali se reutilizarem os materiais, mas a resistência por parte das ordens religiosas foi inamovível. Algumas tinham mesmo acabado de se instalar. O mesmo não sucedia com os demais moradores, incluindo os titulares dos mais altos cargos da administração régia e os próprios arcebispos, que se foram perfilando ao longo da estrada até Ribandar, topónimo que, curiosamente, na língua local significa estrada ou porto real. E logo que, na década de 1630, a Ponte‑Açude do Conde de Linhares ligou Ribandar a Pangim, a migração estendeu‑se até esta última, prenunciando o seu futuro como centro de atividades de Nova Goa, designação oficial da capital instituída (ou reconhecida) em 1843, quando Goa passou a ser Velha Goa. No âmbito do seu vasto plano de reestruturação administrativa e territorial de todo o Estado da Índia, promulgado por cartas régias dos primeiros meses de 1774, o marquês de Pombal ordenou a reforma e saneamento da cidade de Goa, chegando a estabelecer medidas para o retorno compulsivo dos funcionários régios e, bem assim, das instituições de que dependiam. As obras foram iniciadas, tendo‑se, entre outras medidas sanitárias, selado múltiplos poços e outros focos infecciosos. Foram também construídas algumas habitações e recuperados diversos edifícios. O plano era, como sempre, exaustivo e fundamentado em memorandos extraordinariamente ricos e reveladores da situação concreta e do enquadramento ideológico de matriz iluminista. Os jesuítas, claro, eram apontados como os principais responsáveis pela decadência, e o seu património reutilizado como motor da restauração almejada. Também os planos são de uma enorme ambição e extraordinária utilidade para a nossa reconstituição mental da cidade. Porém a sentença de Goa estava ditada, até porque a atual Velha Goa já despontara, revelando‑se com a extinção das ordens religiosas, em 1834. Houve ainda tempo e ensejo para mais desmontes, pois a situação que chegou até nós deveu‑se mais a determinismo administrativo que a incúria. Depois de diversas ações esporádicas, no limite da existência do Estado da Índia o governo decidiu elaborar um ambicioso plano para a Reintegração da Cidade de Velha Goa no seu ambiente histórico, arqueológico, monástico e religioso. Para tal foi constituída uma comissão, cujo trabalho foi publicado no relatório datado de 1959. A implementação do plano foi iniciada, mas era tarde de mais para a administração portuguesa, e a administração indiana só decorridos bastantes anos se começou a interessar ativamente pelo problema, necessariamente com outra perspectiva. Em 1986, pelo seu passado, mas essencialmente pelo que conserva no presente, Velha Goa foi inscrita pela UNESCO na Lista do Património. A grande lição da história de transformação de Goa em Velha Goa resume‑se no fundo ao quanto foi vítima de si própria, pois pesem embora as inúmeras descrições e referências encomiásticas, não foi dotada pela natureza, nem pelos homens, de condições para se manter no espaço como a lenda a perpetua no tempo.

 

Fonte
hpip

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