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TAILÂNDIA

TAILÂNDIA

  • Local: tailandia
  • Categoria:
  • Visita: 23 Mar, 2016
O título de “Veneza do Oriente” não caracterizou apenas Bangkok no decorrer dos séculos, mas também já era aplicado à antiga capital do Sião, Ayutthaya e, por extensão, a todo o antigo reino siamês. Significativamente, uma obra recentemente publicada traz esse título ((Derick Garnier, Ayutthaya: Venice of the East, Bangkok: River Books 2004 ISBN 974 8225 60 7).

Fundamentos históricos: viagens mercantís e luta contra o predomínio comercial islâmico

A chegada oficial dos portugueses ao Sião deu-se apenas 11 anos após a Descoberta do Brasil.  Também no Sião os portugueses alcançaram uma região de luxuriante natureza, coberta de florestas tropicais, rico em madeiras, de riquíssima fauna, e em ambos os casos foram recebidos com amizade pelos habitantes, ainda que o contraste entre o modo de vida dos indígenas do Brasil e a magnificência que encontraram no Sião não pudesse ser maior. Ao chegarem ao Sião, os portugueses já traziam experiências decorrentes de décadas de muitas décadas de viagens marítimas, de descobrimentos e contatos com povos de diferentes continentes.

O descobrimento do Brasil deu-se no decorrer de viagem de frota à Índia, após ter sido descoberto o caminho marítimo em contorno à África, ou seja, de passagem em empreendimento voltado ao Oriente. O seu principal objetivo foi o de superar a muralha criada pelo poderio islâmico e que punha um obstáculo ao intercâmbio comercial entre a Europa e as fontes dos produtos no mais longínquo Oriente. Tratava-se, assim, não apenas de um contorno continental, geográfico, mas de uma esfera de poder e que se encontrava em expansão.

O confronto com o poderio islâmico estabelecido em entrepostos comerciais e centros-chave das mercadorias a serem transportadas em rêde de navegação também dominada pelos árabes surgia como inevitável. Esse confronto oferecia-se como um processo de dimensões globais, e os europeus da Península Ibérica traziam em si a confiança que podiam vencê-lo, confiança basada na experiência histórica da Reconquista com a expulsão dos mouros e na própria fé religiosa. Sob essa perspectiva, o confronto entre cristãos e mouros adquiria uma dimensão universal, senão cósmica, e que poderia ser vista, em termos atuais, como que de natureza sistêmica, inerente ao edifício das concepções e imagens do mundo e do homem. 

No desafio pela concorrência e no confronto com os detentores do poder econômico nos pontos cruciais do espaço geográfico-comercial do Oriente, nutrido por fundamental inimizade, a máxima “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” não poderia deixar de vigorar. Compreende-se, assim, que a entrada dos portugueses em rêdes e campos de tensões estabelecidos não podia deixar de representar interferências em situações políticas internas locais e regionais. Alianças com grupos e povos subalternos, subjugados ou sujeitos ao predomínio dos detentores de poder econômico e de posições-chave nas rêdes comerciais representaram em vários casos o caminho natural para o estabelecimento dos portugueses no jogo de relações comerciais e, gradualmente, no seu assentamento.

Alguns passos dessa entrada lusa no Oriente já foram considerados em textos anteriores da Revista Brasil-Europa. As naus aportaram às costas do Malabar na ilha de Cochim, dando-se a “reconquista” de Goa por Afonso de Albuquerque deu-se em 1510. A procura das fontes de proveniência das mercadorias impeliu os europeus mais ao Oriente. Com a conquista de Malaca, em 1511, tomavam posse do principal empório comercial de toda a esfera oriental, até então em mãos muçulmanas.

As mercadorias, porém, provinham em grande parte de regiões ainda mais distantes, das quais eram trazidas também por comerciantes árabes. Dessas terras, o reino do Sião se salientava, pois muitos bens transportados a Malaca por mercadores muçulmanos provinham de Ayutthaya, a sua capital. Na vasta rêde comercial, esses mercadores chegaram a contar com depósitos em Horrmuz. Para aqui transportadas, com escalas em pontos do golfo da Pérsia, as mercadorias adquiridas em Malaca passavam a negociantes persas e árabes e, através, deles, a europeus, atingindo portos de Veneza, Genova e outros.

Quadro histórico dos caminhos que se abriram com a tomada de Malaca

O contexto que elucida o início dos contatos dos portugueses com o Sião foi considerado de forma expressiva por Joaquim Veríssimo Serrão no seu “Portugal no Mundo” (Portugal en el mundo: Un itinerario de dimensión universal, Madrid: Mapfre 1992, 276-278). Já antes da conquista de Malaca os portugueses procuraram entrar em contato com Ayutthaya. Diogo Lopes de Sequeira teria reconhecido a vantagem de enviar um mensageiro à capital do Sião para dar a conhecer ao rei os objetivos da ação portuguesa no Oriente. Além do mais, baseando-se em Castanheda (História, livro III, cap. LVII, 145, cit. op. cit. 277), Veríssimo Serrão considera que o governador queria ter o rei do Sião como amigo, aspirando a uma aliança que também possibilitaria a obtenção de víveres em caso de necessidade. Assim, as relações encontraram-se desde o início sob o signo de uma desejada amizade, ainda que a serviço de interesses pragmáticos. (loc.cit.)

Em meados de 1510, aproveitando o retorno à China de um junco de chineses que havia ido a Malaca, os portugueses enviaram um emissário ao Sião, acompanhado por Duarte Coelho, Antonio de Miranda e outros portugueses. Ainda que o nome desse emissário seja desconhecido, dominava provavelmente a língua, o que faz supor, pelo menos, que mantinha contatos com comerciantes siameses que visitavam Malaca.

É significativo para o estudo da situação política da época o papel desempenhado pelos mercadores chineses nos contatos com o Sião e que, pelo que parece, diferia da posição oficial do representante da China em Malaca. Os chineses de cinco jungos que haviam sido detidos pelo soberano de Malaca com o objetivo de usá-los contra o rei de Daru, indignados, ofereceram-se para auxiliar os portugueses. Ainda que esse auxílio tenha sido recusado por motivos políticos por parte de Afonso de Albuquerque, os juncos foram aceitos para o desembarque dos portugueses. Bem impressionados, os chineses ofereceram-se para transportar os portugueses ao Sião, na viagem de regresso à China.

Uma carta de Afonso de Albuquerque ao rei D. Manuel, de 1513, citada por Verissimo Serrão (op.cit. 277) salienta a magnificência da recepção dada aos portugueses pelo rei do Sião e o deslumbramento causado pelo brilho do cerimonial e do modo de vida da Côrte. Tem-se, assim, já no início da história das relações luso-tailandesas, menção ao significado das expressões culturais e à sua exuberância na representação do reino e no encontro diplomático que marcaria o Sião aos olhos da Europa através dos séculos. A expedição retornou com uma carta a D. Manuel com presentes de objetos artisticamente trabalhados em ouro e pedras preciosas.

Após a conquista de Malaca, Afonso de Albuquerque enviou mensageiros ao Sião e a outras regiões, entre elas Maluku, Pegu, Java e China, fato registrado por João de Barros (Decada III, Livro II, cap. VI, cit. Veríssimo Serrão, op.cit. 292), o que marcou o início das relações dos portugueses com os reinos vizinhos. Segundo o historiador português, o rei siamês ficou satisfeito com a conquista de Malaca pelos portugueses,  o que faz supor uma situação de inimizade entre o Sião e os detentores islâmicos de poder em Malaca. Em 1513, o Sião enviou uma embaixada a Malaca, ali recebida com muita honra e salvas de artilharia da fortaleza. O Sião tornou-se conhecido na Europa pela sua grandeza e riqueza, onde havia, além de muito arroz, laca, benjui e também pau-brasil, como documentado já em carta de 1514. (op.cit. 278)

Tomando conhecimento da importância de Ayutthaya, e a sua posição de preeminência na península, A. de Albuquerque enviou Antonio Miranda de Azevedo como embaixador, que, apesar de viajando modestamente a bordo de uma barca chinesa, levou consigo, com credenciais oficiais, presentes ao rei siamês. Um português de nome Manoel Fragoso viajou com o objetivo de ali permanecer dois anos e escrever um relato.

Ao tomar conhecimento de sua chegada, o rei mandou que fossem recebidos e acompanhados por 200 soldados ao palácio. Centenas de pessoas ocorreram para ver os portugueses. O rei, Rama Thibodi II, por sua vez, enviou um embaixador na viagem de retorno dos portugueses.

Tratado de amizade e comércio – consequências de obrigações de amizade

Em 1518, fechou-se um tratado de amizade e comércio, o primeiro entre Ayutthaya e uma potência ocidental.

Se o início das relações entre o Sião e Portugal pode ser explicada através do contexto político na região, no qual a ação dos portugueses teria vindo de encontro aos interesses siameses, a aliança então estabelecida levou a que os portugueses passassem a apoiar o Sião no complexo campo de tensões em que se encontrava já há séculos. Uma arma de fogo portuguesa encontrada em Ayutthaya indica a entrada de armas ocidentais no reino através dos portugueses. Um contingente de portugueses atuou quando o reino de Chiang Mai anexou Sukhothai e Kamphaeng Phet, cidades da esfera de poder do rei Rama Thibodi II.

Também os burmeses passaram a experimentar a força das armas que agora os siameses possuiam. Ao atacarem Ayutthaya, em 1549, foram recebidos com armas de fogo. Entretanto, ainda que de forma ainda não suficientemente explicada, também êles eram acompanhados por um contingente português.Assim, portugueses teriam passado a lutar de vários lados nos exércitos locais. Quando o rei Naresuan atacou os cambodjanos, encontrou portugueses entre os cativos.

Esse fato, salientado por D. Garnier (op.cit.), indica a complexidade do desenvolvimento das relações dos portugueses com os diferentes povos da região. Tendo-se originado supostamente de mecanismos de aproximação e de conquista de simpatia similares àqueles com o Sião, as alianças criadas com fins pragmáticos passaram a exigir o apoio dos aliados lusos nos conflitos locais. Constitui uma tarefa de estudos mais aprofundados comparar essa situação com a participação de portugueses em conflitos entre povos indígenas no Brasil.

Situação de dependência, apoio militar e internacionalização de conhecimentos

Um outro fato considerado por D. Garnier chama a atenção a um fator significativo para o estudo de mecanismos integrativos de portugueses na sociedade siamesa. O autor salienta que o rei Chai Rajathirat, que subiu ao trono pouco após a chegada dos portugueses, teve um contingente particular constituido por portugueses para a sua guarda pessoal. Como estrangeiros, sujeitos à benevolência real, eram mais leais e tendiam menos à insubordinação. (op.cit. pág. 71) Teriam passado, assim, a ocupar posições mais próximas à autoridade constituída pela sua própria situação de dependência.

Para além de homens de combate, os portugueses granjearam nome como construtores de fortes e fortificações. Em 1550, após a primeira vitóri de Ayutthaya sobre os burmeses, o rei Chakraphat, ao derrubar os antigos muros para substituí-los por construções mais sólidas,foi auxiliado por portugueses que planejaram muros e bastiões projetados a modo ocidental.

Essas atividades militares eram porém decorrentes das circunstâncias, assim como também os atos de conquista haviam servido a interesses comerciais. A intento português era sobretudo o do comércio, e como comerciantes passaram a atuar no contexto siamês, intensificando trocas.

Apesar da predominância de comerciantes muçulmanos e chineses em Ayutthaya, havia espaço para mercadores farang. Avalia-se que, em meados do século XVI, ca. de 300 portugueses viviam no país, formando o cerne de uma povoação localizada fora de Ayutthaya, com ca. de 2000 fogos e 3 igrejas, a aldeia dos portugueses, o Ban Portuguete. Era uma situação insular sob diferentes sentidos, a “ilha dos portugueses”, uma vez que era circundada por um canal. O português tornou-se lingua franca para mercadores estrangeiros em Ayutthaya, mantendo-se como linguagem internacional até o século XIX. Até hoje usam-se palavras portugueses na língua tai, no exemplo da designação do pão (khanom pang) ou do uso do termo sala.

Casamentos mistos e surgimento de comunidade luso-siamesa

As famílias que viviam no Ban Portuguete eram originadas de casamentos entre portugueses e siamesas, após terem estas se convertido ao catolicismo. D. Garnier salienta o significado da miscigenação na ação dos portugueses no mundo, em parte derivada das circunstâncias, em parte refletindo uma estrategia política de assentamento e criação de uma população marcada por elos de lealdade. Os filhos desses casamentos tornavam-se artesãos, construtores de navios no país em que nasciam, ou sacerdotes. Se essa política de miscigenação foi vista negativamente por observadores ocidentais, que diziam dela ter surgido uma semi-casta pobre de mestiços, não bem vistos nem pelos europeus nem pelos nativos, D. Garnier a considera, ao contrário, como inteligente e esclarecida.

(…)in countries where the Portuguese settled and traded, he encouraged his men to marry the local women. Their children would become the clerks, the artisans, the shipbuilders in the country of their birth. This discustet narrow-minded westerners: ‘their children, got upon black women’, as Kaempfer wrote with disdain in the seventeenth century, ‘a poor, gibbering half-caste’, as Crawfurd wrote of the port official sent to meet his party in the early nineteenth century. In fact, it was a clever and an enlightened policy” (op.cit. 70)

O fomento de casamentos mistos de portugueses com mulheres nativas não deveria porém ser visto apenas como resultado de exigências, circunstâncias ou com intuitos refletidos de criação de uma população leal a Portugal, mas sobretudo sob o aspecto do dever de cristianização e de expansão do Cristianismo que sempre acompanhava a ação portuguesa.

Sob o ponto de vista teórico-cultural, pode-se supor que esse caminho na formação de uma comunidade luso-siamesa teve características e consequências comparáveis àquelas estudadas em de outros contextos, em particular brasileiros, fundamentando complexos processos de identidade derivados da instabilidade e de impulsos de integração e auto-afirmação. O estado das pesquisas, porém, pouco permite que se analise as características da sociedade luso-siamesa que existiu em Ayutthaya até 1767, quando então transferiu-se para Bangkok.

Para D. Garnier, as expectativas que os portugueses teriam nutrido a respeito de um papel de particular importância a ser exercido por Ayutthaya no novo contexto das relações econômicas e políticas não foram totalmente cumpridas. O desenvolvimento das ações lusas passou a ter um redirecionamento, levando a reconfigurações estratégicas das relações internacionais. Com os sucessos em outras regiões, os portugueses passaram a comerciar com portos no golfo pérsico, na Arábia e no Mar Vermelho a partir de Goa; passaram ao Ceilão e exploraram as costas orientais da Índia, Arakan, Pegu e Sorian, extenderam-se ao longo das costas de Annam, Champa e Tonkin até chegarem à própria China, onde se assentaram em Macau e passaram a explorar a China e o Japão. Sobretudo Macau passou a constituir por séculos o centro principal da rêde lusa no Extremo Oriente. Mercadores passaram a comprar e vender bens nas ilhas das especiarias, em Sumatra, Java, nas Molucas, Ternate, Tidore, Celebes; alcançaram Borneo, Banda, Bintang, Sunda, Flores e Timor, possivelmente até mesmo a Austrália (op.cit. 67)


D. Garnier menciona que portugueses enviavam arroz, marfim, índico, laque e madeira para outras regiões, trazendo traziam de volta sobretudo objetos de metal. Do Brasil, os portugueses teriam levado ao Sião batata doce e milho, tomates, agrião, couve, repolho, ocra e pimentos. Entre as frutas, goiaba, mamão e abacaxi. (op. cit. 69)

Da perspectiva histórica a partir das fontes à consideração da memória nos estudos culturais

O fato de Bangkok ter herdado a designação da antiga capital do Sião chama a atenção do observador a um aspecto de fundamental significado para os estudos referentes à Tailândia e mesmo de relevância para os estudos culturais em geral. Trata-se do fato de ter sido a história do país marcada pela destruição de Ayutthaya – até então metrópole de primeira grandeza do Sudeste da Ásia – e o deslocamento da capital do país a Bangkok, hoje uma das maiores metrópoles do globo.

Um cisão marca, assim, a decorrência histórica do Sião, uma discontinuidade decorrente da interrupção causada pela destruição de Ayutthaya, e, ao mesmo tempo, uma retomada da continuidade em Bangkok, uma reconstrução e reedificação de um passado no local de transferência. Consequentemente, à primeira vista, o observador supõe que os monumentos de Bangok, na sua impressionante aparência de vetustas expressões culturais de passado de séculos, sejam de origem muito mais remotas do que são, surpreendendo-se em constatar que muitos de seus templos e palácios são de construção relativamente recente, do século XVIII, XIX e mesmo XX. Longe de diminuir o significado desse patrimônio monumental, tem-se aqui um fato de extraordinário interesse para a história cultural da Humanidade e que abre perspectivas inusitadas para a avaliação da obra de construção da imagem e identidade da nação levada a efeito no periodo iniciado com Bangkok e mesmo para os estudos do Exótico em geral, esses de relevância também para o Brasil.

Na procura de uma aproximação adequada aos estudos das relações entre a Tailândia e o mundo de língua portuguesa, essa singularidade do desenvolvimento histórico do país não pode deixar de ser considerada.

Uma visão linear da história, do remoto passado ao presente, não corresponde à linha de continuidade histórica interrompida, continuidade que foi antes reatada, retomada numa determinada época a partir de tradições e da memória.

A reconstrução e revitalização de um passado lembrado marcaram a edificação e a vida cultural da nova capital e do país na sua nova localização. A apreciação de sua realidade construída não pode ser alcançada em consideração linear, de “trás para a frente”, não se encontrando, nesse procedimento, explicação para as suas características, em particular para o esplendor de suas expressões.

Essa sua magnificência apenas pode ser compreendida como concretização de surpreendentes esforços de recuperação e afirmação de um passado que surgia, na memória, como iluminado. A reconstrução de um patrimônio, com a consequente presentificação de imagens obedeceu a finalidades político-culturais da dinastia e, em termos atuais, à objetivos de consolidação e mesmo criação de identidade cultural e consciência nacional.

Assim considerando, o reino do Sião, a partir de Bangkok, exige a revisão de concepções relativas ao Historismo e ao Exotismo, até hoje exclusivamente baseadas no contexto europeu e suas irradiações no mundo.

Bangkok testemunha que também em outras regiões do globo houve esforços de reatamento com o passado e de revitalização de correntes e conteúdos, em particular de fundamentação religiosa. Bangkok surge como um fenômeno nessa visão global de reatamentos históricos, até mesmo antecipador, e o o encanto exótico que o Ocidente nele encontrou no século XIX representa uma expressão de uma reconscientização do próprio patrimônio histórico.

Ayutthaya ressurgida em esplendor na cidade real de Bangkok

O núcleo real de Bangkog apresenta uma singularidade de implantação urbana que já havia caracterizado a antiga capital do Sião Ayutthaya: a do fato de ser edificada numa ilha artificial, definida por um lado pelo rio Chao Phraya e por outro separada da terra firme por um canal (Khlong Lord). Essa medida tem sido vista sobretudo como expressão de uma necessidade de defesa, tal como aquela dos fossos de castelos medievais europeus. Entretanto, há uma dimensão que ainda não tem sido considerada e que diz respeito à ilha como figura, como o da terra firme que se eleva das águas.

O Palácio Real de Bangkok foi construido segundo o plano do palácio destruído de Ayutthaya, o Wang Luang. Representa, assim, a edificação de um propósito, o de fazer ressurgir o antigo reino em todo o seu brilho. Esse foi o intento de Rama I (Phra Phuttayodfa Chulalok) ao lançar os fundamentos da nova cidade real à margem oriental do rio Maenam Chao Phraya. Sendo uma região de várzea, inundável, a construção exigiu a sua drenagem, dando-se prosseguimentos a trabalhos já anteriormente iniciados com a construção de um pequeno canal. Supõe-se que a comunidade de comerciantes que ali já vivia apoiava o Wat Pho, sendo solicitada a ceder a área, transferindo-se para outra região.

De construções provisórias, de madeira e trançados de palha, construiu-se, aos poucos, um conjunto voltado a restaurar antigas edificações em todo o esplendor fixado na memória. Também a cêrca de paus deu lugar a um muro de alvenaria. Os elos com a antiga Ayutthaya se manifestaram também no fato de se de lá trazer materiais para as novas construções. Em 1785, o palácio pôde ser inaugurado com alguns de seus edifícios, terminados à época da subida ao trono de Rama I. A principal construção de toda a área foi aquela destinada a abrigar a imagem do Buda Esmeralda, de extraordinário significado simbólico para a monarquia, o Wat Phra Kaeo.

Essa singularidade das origens do plano arquitetônico da cidade real, fundamentalmente de natureza reconstrutiva, de revitalização de uma antiga cidade, parece explicar também o fenômeno das constantes remodelações e reconfigurações de edifícios, possivelmente no intuito de adequá-los a imagens e memórias que surgiam à nova luz e a novos impulsos recebidos de contatos.

Cultura luso-siamêsa em Bangkok sob o signo do ressurgimento e da memória

Com a deslocação do centro do reino da destruída Ayutthaya a Bangkok, também a comunidade luso-siamêsa, de secular história, foi transferida. Participou, assim, no plano – e no sonho – do ressurgimento da antiga potência em todo o seu brilho da nova dinastia. Também as suas origens deram-se, assim, antes sob o signo da memória do que da história na sua continuidade linear.

Esse fato não tem sido considerado nos estudos respectivos. O caminho percorrido tem sido aquele aberto pela pesquisa de fontes históricas a partir do século XVI, procurando-se, com base em referências esparsas, reconstruir a história a partir dos primeiros contatos no seu desenvolvimento linear. Nesse procedimento, cria-se um quadro marcado por duas fases, a da antiga Ayutthaya e a da nova em Bangkok, a de uma era remota, encerrada, e a do desenvolvimento histórico que leva à comunidade que ainda hoje se mantém, não se considerando a continuidade possibilitada pela memória.

Há a tendência de julgar-se que a internacionalização do Sião tenha sido um fenômeno desse século: um país marcado por cultura original, autêntica, de remotas origens, ter-se-ia ocidentalizado no contato e no confronto com nações européias de intuitos coloniais e imperialistas. Esquece-se, nessa visão histórica, que o antigo Sião de Ayutthaya já havia tido não apenas uma história marcada por intensas relações internacionais, mas possuia até mesmo parcelas populacionais de europeus e seus descendentes.

Foi com base na memória desses contatos seculares que a história das relações políticas, diplomáticas e culturais do século XIX se desenvolveu, uma vez que elos seculares eram lembrados em atos e tratados. O extraordinário significado da diplomacia cultural na consideração do reino do Sião no século XIX, conhecido na Europa pelo brilho e fascínio exótico das cerimonias e pelos gestos de amizade e cordialidade de seus reis e autoridades parece ter aqui a sua explicação.

Entrega de terreno a Dominicano por Rama I: Campo do Rosário

A própria cessão do terreno aos portugueses para a construção de uma feitoria e de uma igreja por Rama I em 1786, logo após a inauguração do Palácio que retomava Ayutthaya no novo local ocorreu na consciência desse passado marcado por amizade. O rei anunciou essa cessão em carta à Rainha D. Maria I em resposta a uma proposta que esta lhe havia feito de auxiliá-lo na luta contra os birmaneses que haviam invadido o território. Agradecendo, Rama I comunicou-lhe não ser necessário enviar tropas nem materiais bélicos, pois esperava, com as próprias forças obrigá-los a pedir paz. Pedia apenas que desse ordens ao Governador de Goa para este lhe enviasse 3000 espingardas, que as pagaria. O terreno cedido foi entregue ao Fr. Francisco das Chagas O.P., enviado pelo Governador de Goa, com as espingardas, passando a ser conhecido por Campo do Rosário. De documentos conservados em Macau, coligidos e estudados por Beatriz Basto da Silva, o pesquisador tem hoje a possibilidade de obter a elucidação de um caso que já deu ensejo a discussões (Beatriz Basto da Silva, Cronologia da História de Macau II: Século XVIII,  Macau: Direcção dos Serviços de Educação e Juventude 1993, 141)

A oferta de D. Maria I em correr em auxílio ao reino do Sião nessa época crucial de sua história apenas pode ser compreendida sob o pano de fundo de longa história de relações amigáveis e mesmo de favores anteriormente prestados. Assim, o Sião havia apoiado econômicamente Macau com alentados empréstimos em época de necessidades e era um parceiro significativo no comércio.

Já em 1688, quando de uma revolução no Sião, reuniram-se homens de influência na Casa da Câmara de Macau para deliberarem sobre o envio ou não de um barco ao Sião. Decidiu-se enviar uma nave para felicitar o novo rei e para tomar conhecimento se os franceses ainda continuavam senhores das fortalezas de Bangkok. (op.cit. 147). Em 1669, registrou-se a entrada no porto de Macau de um patacho de Miguel Grimaldi, comandado por José Pinheiro, trazendo parte de um empréstimo feito a Macau pelo rei do Sião, no total de 665 cates de prata. O Leal Senado de Macau cabaria de reembolsar esse empréstimo, em prestações, apenas no primeiro quartel do século XVII, como o registra uma notícia de 1718 (op.cit. III, 42). A entrada e a saída de outros barcos documenta intensos contatos entre o Sião e Macau (op.cit. I, 136).  Em 1722, o Praklang do Sião escreveu ao Leal Senado pedindo-lhe remessa de mais alcatifas da Pérsia à Côrte siamesa, que seriam pagas pelo próprio rei. (op.cit. III, 53).

O fato do terreno ter sido recebido por um dominicano, enviado com as armas encomendadas, também não pode ser compreendido sem os seus pressupostos históricos. Também aqui retomava-se um passado, fazia-se com que a comunidade no novo local fosse fundada sob o mesmo signo da ação dominicana como o fora há séculos.

fonte:
Revista Brasil-Europa
Grupo de trabalho sob a direção de
Antonio Alexandre Bispo

 

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