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Forte de Santo Ângelo

Forte de Santo Ângelo

  • Local: fort santo angelo, kannur
  • Categoria:
  • Visita: 14 Sep, 2015

Em 1505, acabado de chegar à Índia, o vice-rei Francisco de Almeida decidiu erguer uma fortificação, obtendo a anuência do rei local, o Kõlathiri.

A decisão teve origem no crescendo de tensão com a comunidade muçulmana, uma das mais importantes do Malabar.

O sítio tinha boas condições naturais de defesa, reduzindo a necessidade de implantar um forte dispositivo militar.
O assédio marítimo era impossível, já que a península era cercada de grandes rochedos, sendo a acostagem apenas viável na baía, ao passo que a frente de terra era reduzida.

A fortaleza foi batizada Santo Ângelo, precisamente por estar situada sobre água, como o castelo de Roma.

O dispositivo foi esboçado pelo vice-rei, que deixou a traça ao capitão Lourenço de Brito.
Consistia numa muralha e num fosso que isolavam a península da terra firme. A terra e pedras recolhidas na escavação do fosso foram aproveitadas na edificação do muro, que se construiu combinando madeira e outros elementos perecíveis com pedra e cal.
Foram reaproveitados materiais da desmantelada Fortaleza de Angediva, designadamente molduras de vãos provindas do reino.

No início de 1506 os trabalhos estavam avançados, existindo um recinto defensivo fechado e uma torre de menagem.

Segundo o cronista Gaspar Correia, o perímetro tinha planta quadrada, com pouco mais de oitenta metros de lado.
Nas extremidades existiam quatro cubelos com um sobrado. A torre de menagem, com dois andares, implantava-se no centro do pátio.

Em 1507, a capacidade militar da fortaleza foi posta à prova.
A sucessão dinástica local ditou um herdeiro menos favorável aos portugueses e mais aberto a pressões muçulmanas.

No decorrer do cerco e dos recontros travados a propósito do abastecimento de água, que se fazia num poço situado no exterior da fortificação, foi construído um túnel suportado por arcos de pedra, sob direção do mestre-de-obras Tomás Fernandes.
Antes da derrota dos sitiantes foram abatidas as palmeiras que se encontravam junto à fortaleza para melhor utilização da artilharia.

Em 1514 existiam já problemas de conservação da torre de menagem, erguida em alvenaria de pedra e barro, e a sua localização revelava-se desajustada à proteção do porto.
Afonso de Albuquerque sugeriu, então, que esta fosse refeita de pedra e cal, no canto da fortaleza e contígua ao cais, mas cinco anos depois mantinham-se os problemas estruturais, levando ao seu abandono.

Em 1520, o capitão Aires da Gama deu início ao plano gizado por Albuquerque, abrindo-se também uma cisterna e poços e instalando-se um grande forno de cal para as obras, lideradas pelo mes tre Pêro Álvares.
O sistema defensivo de Cananor era então com‐ posto por três espaços distintos.
A norte havia um vazio entre a fortaleza propriamente dita e a muralha e fosso exteriores, local de futuro desenvolvimento urbano.

Aquelas estruturas incluíam um muro espesso equipado com bombardeiras, com duas torres nas extremidades, e uma cava com cerca de sete metros de largura.
O segundo espaço era a fortaleza, dominada pela enorme torre de menagem, com balcão assente em cachorrada na face voltada a sul e nos vértices.
Adossada à torre estava a casa do capitão, bem outras pequenas casas térreas.
A torre implantava‐se no canto norte de um recinto conformado por muros de pouca espessura.
Só no sector virado a terra havia uma composição mais robusta, com muro dotado de adarve e ameias de corpo largo.
No lado oposto ao da menagem existia uma torre poligonal acasamatada com bombardeiras no nível inferior, de cronologia imprecisa. A extremidade ocidental da península constituía o derradeiro espaço da área fortificada. Não tinha inicialmente qualquer defesa edificada.

O surgimento do poderio otomano levou à reparação da Fortaleza de Cananor, em 1526. A obra incluiu a edificação de dois baluartes na cortina exterior e o conserto do fosso, refazendo‐se com pedra e cal as construções mais frágeis.

Talvez date também desta época o muro desenhado por Correia em redor da parte ocidental da ponta.

Estas iniciativas ficaram cristalizadas no desenho do cronista, salientando‐se o formato ultra‐semicircular dos citados baluartes, baixos, espessos e dotados de canhoneiras, representando um estágio mais evoluído na arte de fortificar da primeira metade de Quinhentos.

As obras reformaram profundamente a estrutura defensiva externa do dispositivo militar, passando a centrar‐se aí o essencial da sua força.
Este sistema defensivo manteve‐se quase inalterado.

Em 1635, António Bocarro confirmou o seu perímetro como de pouco mais de quinhentos e sessenta metros, acrescentando que a fortaleza tinha os “muros muito imperfeitos”, totalmente colapsados na banda do mar.

A degradação vinha de finais de Quinhentos, dizendo‐se em 1613 que “está tão danificada que não tem nenhuma defesa”, ou mesmo que “está quase no chão”.
Nesta data ponderou‐se o seu abandono, dados os custos da reedificação e a inexistência de um bom porto ou rio para abrigo de armadas.
Na verdade, a fortaleza continuava a cumprir a sua função, como no ataque muçulmano de 1617. As obras de reparação determinadas pelo rei só tiveram curso nos inícios da década de 1620, sob a direção do engenheiro Júlio Simão, que reconstruiu o baluarte central na banda de terra.
O baluarte mais importante continuava a ser o que confinava com a baía, denominado couraça por conduzir a um desembarcadouro, visto proteger a porta e confinar com o bazar dos mouros.

Em 1635, segundo António Bocarro, a frente da baía era ainda protegida por outros elementos defensivos.
Para além da fortaleza, os portugueses dispunham ainda das “tranqueiras de fora”, uma cortina que cercava o arrabalde.
Em 1558 foram consideradas velhas, pois constituídas “de taipas muito fracas, com alguns andaimes e guaritas”.
Em 1635 tinham cerca de 1.500 metros de perímetro, quatro de altura e muitas guaritas e baluartes. As obras pontuais da década de 1630 não serviram senão como paliativo, pelo que em fevereiro de 1663, face à ameaça holandesa e muçulmana, a fortaleza foi considerada indefensável, por ter “muros muito velhos e fracos” e “cava entupida”, “tudo obra antiga”.
O núcleo mais antigo de Cananor desapareceu após a conquista holandesa.

 

fonte
HPIP

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