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Forte de S. Tomé

Forte de S. Tomé

  • Local: Tangasséri
  • Categoria:
  • Visita: 18 Aug, 2015

Os vestígios da fortificação portuguesa em Coulão, na zona de Tangasséri, representam um dos escassos exemplos de estruturas militares do período manuelino a sobreviver até hoje na esfera do Índico.
Apesar da sua conquista pelos holandeses, em 1661, a fortaleza primitiva foi por estes aproveitada, tendo ficado arruinada apenas com a ocupação britânica, em 1795.

O porto de Coulão, situado na costa de Travancore a cerca de cento e trinta quilómetros a sul de Cochim, era conhecido, no início de Quinhentos, não só como uma importante escápula de pimenta e gengibre, mas também por possuir uma comunidade relativamente numerosa de cristãos de São Tomé, que aí se encontravam estabelecidos desde o século VII, razões que levaram os portugueses a procurarem instalar ali uma fortaleza.

Após um primeiro contacto, estabelecido por Vasco da Gama na sua segunda viagem, viria a ser firmado, ainda em 1503, um acordo comercial entre Afonso de Albuquerque e as autoridades locais, que autorizaram o estabelecimento de uma feitoria, ficando António de Sá como feitor.

A fortificação da feitoria foi ordenada pelo rei D. Manuel em fevereiro de 1505.

Todavia, a irrupção de um conflito com os mercadores muçulmanos locais provocou não só a destruição da feitoria e da antiga Igreja de São Tomé, mas também a morte dos portugueses que ali se encontravam.

Este facto, aliado à adopção pelo vice‐rei de uma política de concentração de forças em torno de Cochim, com o objetivo de assegurar o regular abastecimento das naus da Carreira da Índia, obrigou a que a sua construção só se viesse a concretizar bastante mais tarde, em 1519.

Nomeado feitor de Coulão em 1517, Heitor Rodrigues recebera ordens para restabelecer a presença portuguesa no local e iniciar uma nova fortificação.
De acordo com Gaspar Correia, escolhida a praia de Tangasséri como local de edificação da fortaleza, a construção foi‐se fazendo muito lentamente e o seu artilhamento com berços, falcões e camelos foi conseguido de forma sub‐reptícia, de forma a não acirrar os ânimos da população.
Fernão Lopes de Castanheda também refere que, para maior recato da obra, foi feita uma cerca de paus e canas, tendo sido lançados os alicerces sob a direção de um mestre‐de‐obras levado de Cochim para o efeito.

Foram construídas três torres, “a de menagem e outras duas que ficam em triângulo, que quando jogasse a artilharia uma não pudesse fazer nojo à outra”.
A área amuralhada media cerca de 185 palmos (40,7 metros) de comprimento por 75 palmos (16,5 metros) de largura, tendo as muralhas uma altura de cerca de dois homens.

Com o correr dos meses foi ainda construída uma couraça para a praia e levantadas as paredes de um cubelo que estava mais dentro de terra, ao mesmo tempo que se defenderam as entradas com portas fortes com alçapão.

A conclusão da obra viria a ocorrer já durante a governação de Diogo Lopes de Sequeira, em setembro de 1519, em resultado do acordo secreto firmado por Heitor Rodrigues com a rainha de Coulão e o seu ministro Chânai Pillai.

Passado pouco tempo, Coulão foi cercada por forças indianas.
Não obstante tratar‐se de uma pequena fortificação, de planta irregular e bastante diferente dos castelos marítimos construídos nesta primeira fase de estabelecimento português no Oriente – como se comprova pelo desenho de Gaspar Correia das Lendas da Índia – permitiu ao reduzido número de portugueses que a defendiam resistirem durante meses e prevalecer face aos sitiantes.

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Ao longo dos anos a fortaleza de São Tomé foi sendo alvo de reparações, em especial a couraça, que ruiu ainda durante a capitania de Rodrigues, e a área envolvente do poço que, por se encontrar fora do perímetro amuralhado inicial, foi defendida com um importante reparo para evitar que a água fosse envenenada.

Em finais da década de 1580 novas obras de fortificação foram efetuadas, como o comprova a missiva da câmara de Coulão para o rei, em que agradece as diretivas emitidas no sentido de serem terminadas as obras de reparação iniciadas.

Em meados da década de 1630, de acordo com os desenhos e a descrição feitos por António Bocarro e Pedro Barreto Resende, a fortaleza, fruto da ação erosiva das marés, encontrava‐se significativamente mais próxima da linha de água, sobretudo na “banda de Leste, que é a mais perto do mar”, onde perdera aproximadamente quinze metros dos vinte a que se encontrava inicialmente.

Isso provocou, por mais do que uma vez, a queda dos muros que lhe serviam de reparo.
Esse conjunto arquitetónico mantinha a estrutura inicial de três torres “para as quais se entra por uma porta, por que se sobe por quinze degraus para um balcão ou guarita coberta de telha”, ao nível do qual se encontrava um revelim artilhado com dois falcões e que dava acesso à torre de menagem.

Esta, “que é a maior, a que se encosta o dito balcão, tem pegado de si outra, que fica com o corpo sobre si pegada somente com a grande no lugar em que tem uma porta, por onde se entra nela”.

Ambas as torres eram de três sobrados “e no meio fica uma sala de dois sobrados, que ambos estão caídos, por onde se vai à terceira torre que, como as outras é também de três sobrados”.

Esta fortificação encontrava‐se então “muito danificada e quase para cair”, em virtude de, desde a sua construção, nunca ter sido “reedificada e raro concertada”.

Contudo, nesta altura os portugueses preocupavam‐se sobretudo com as obras de recuperação e, porventura, de fecho do largo perímetro amuralhado construído em redor da fortaleza primitiva e da povoação que lhe estava adjacente.

Os cerca de mil passos (cerca de um quilómetro) que compunham a muralha encontram‐se exaustivamente descritos por António Bocarro: existiam seis baluartes ou guaritas artilhadas, três baluartes ou revelins não artilhados e, ainda, duas portas.
Algumas destas posições não figuram no desenho anexo à descrição.

Todo o conjunto fortificado se viria a revelar impotente para, em 10 de dezembro de 1661, travar o assalto da poderosa esquadra holandesa de Rijkloff van Goens, que rapidamente conquistou a praça.

Na vista de Coulão inserida na obra de Philippus Baldeus (1671), está representada a muralha portuguesa e o desenho de uma nova linha de defesa, mais regular e de menor circuito, embora não seja certo que esta tenha sido efetivamente construída em detrimento da estrutura portuguesa.

Mas sabe‐se que o núcleo manuelino de Coulão, a Fortaleza de São Tomé, foi restaurada e aproveitada pelos holandeses.

Actualmente, as ruínas de um dos três torreões dessa fortaleza ainda subsistem entre as palmeiras da enseada de Tangasséri.

fonte
Sidh Losa Mendiratta, Vítor Luís Gaspar Rodrigues

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