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Cananore (Kannur)

Cananore (Kannur)

  • Local: kannur
  • Categoria:
  • Visita: 14 Sep, 2015

Em 1502 os portugueses ergueram o seu primeiro estabelecimento permanente no porto de Cananor, uma feitoria dedicada particularmente ao resgate de gengibre, assaz abundante no reino de Kõlathunãd.

O local de implantação foi aquele onde se veio a desenvolver a fortaleza portuguesa, uma longa ponta de terra reentrante sobre o mar, plana e de baixa altitude, dominando a Baía de Cananor.
Era então um espaço quase inabitado, marginal ao povoado autóctone.

A primitiva povoação portuguesa implantou‐se na extremidade dessa península, sendo a feitoria, construída em 1502, o edifício fundacional do pequeno burgo.
Defendida de eventuais incursões por terra pelo sistema defensivo, que se entrepunha ao continente, e circundada de todos os outros lados por costa rochosa, encontrava‐se claramente isolada do meio local.

Quatro anos depois deu‐se início à edificação de uma grande sala para armazenamento de mantimentos e ao levantamento de uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Vitória, comemorando o sucesso naval alcançado ao largo pelos portugueses, sob a liderança de Lourenço de Almeida.

A possibilidade de acostagem nesta península do lado da baía levou a que fosse construído um cais.

No ano seguinte, durante o cerco ao recinto defensivo orquestrado pela comunidade muçulmana mapila, deflagrou um incêndio na casa da feitoria, com cobertura de ola, espalhando‐se rapidamente pelas casas contíguas, todas de materiais inflamáveis.

Este facto comprova a existência da povoação naquele sector desde época recuada, sendo representada em meados de Quinhentos por Gaspar Correia.
O desenho e o texto do cronista são coincidentes no que se refere à presença dos edifícios públicos citados, dispostos em torno de um terreiro, utilizado no tratamento e acondicionamento do gengibre.

Junto à porta do cais e servindo de fecho do perímetro defensivo para a baía erguia‐se de pedra e cal, com dois pisos, a casa da feitoria; ao piso térreo, sem janelas, acedia‐se por duas portas, ao passo que a entrada em altura do piso superior, iluminado através de quatro grandes janelas, se fazia por escada exterior adossada.
500 m no lado oposto, junto ao mar, localizavam‐se o armazém de mantimentos e munições, edifício térreo adossado à muralha, e o hospital, talvez estabelecido por Francisco de Almeida, mas certamente em funcionamento na segunda década de Quinhentos, como se comprova pelos provimentos de enfermeiros e boticários.
Era então considerado o melhor equipamento do género na Índia, acorrendo a ele gente de outras fortalezas.
Contudo, deixou de funcionar até 1554, sendo a pequena casa que o albergava transformada em armazém de munições e pólvora.

As cerca de trinta casas, praticamente todas térreas, organizavam‐se também em torno daquele grande espaço público, para o lado da extremidade da península, a sul, contornando a orla marítima.

A parte norte do terreiro fazia a articulação com a fortaleza.
Na extremidade da ponta estava a Ermida de Nossa Senhora da Vitória, construção alongada com telhado de duas águas.
Provavelmente ainda na primeira década de 1500, os cerca de vinte casados portugueses e oitenta elementos da guarnição passaram a privilegiar a fixação a noroeste da torre de menagem, portanto confinando com o muro exterior e fosso, alegadamente porque as casas da ponta eram assaz incómodas durante a monção.

O desenho de Gaspar Correia mostra este espaço plenamente urbanizado em meados deste século, com duas portas para terra, em lados opostos junto ao mar e à baía.

Apenas esta subsistiu fortificada, segundo o testemunho de António Bocarro (1635). Este sector organizava‐se em torno de dois eixos de circulação: uma rua quase perpendicular à frente do mar, que unia a porta do recinto junto à torre de menagem ao Convento de São Francisco; outra rua, quase perpendicular a esta, que conduzia à serventia para o exterior do complexo.
O ponto de cruzamento era o Largo da Matriz, o principal espaço público.
Uma série de ruas secundárias, tendencialmente ortogonais, compunham quarteirões.
O casario era quase todo de habitações térreas, delimitando‐se nas traseiras, com estacarias, pequenas hortas que preenchiam o interior dos quarteirões.
Algumas casas encostavam à muralha.

Durante o governo de Francisco de Almeida iniciou‐se o levantamento da igreja matriz, com a evocação de Santiago.
Consertada, ornamentada e dotada de novo sino em 1514, a pequena construção era cinco anos depois considerada incapaz de albergar toda a população cristã.

Localizada dentro da fortaleza, tratar‐se‐ia do edifício estreito e alongado, com portal em arco perfeito encimado por janela e telhado de duas águas com estrutura sineira no beirado, que Correia legenda como Misericórdia.

Aquela instituição, dotada de espaço de culto próprio em meados do século XVI, deve ter‐se para ali mudado após a edificação da nova “igreja principal”, erguida entre 1523 e 1524 “dentro dos muros”.
Fez‐se então um templo de “boa quantidade e de grandura […] com uma capela em uma das ilhargas”,certamente o edifício representado por aquele cronista no centro do espaço urbanizado entre a torre de menagem e o muro e fosso exterior.

Com telhado de duas águas, tinha uma volumosa torre sineira.
Implantava‐se em espaço desafogado, murado e sobrelevado, a que se acedia por escada, sensivelmente no centro da povoação.

A igreja principal de Cananor estava muito danificada nos inícios de Seiscentos.
Em 1619, o rei insistiu para que se procedesse ao seu conserto, gorando‐se então a hipótese de esta ser beneficiada durante a empreitada de reparação do sistema defensivo, dirigida pelo engenheiro Júlio Simão.

O derradeiro espaço religioso a ser levantado em Cananor foi o convento dos franciscanos observantes.
Já em 1518 estes aventavam a hipótese de estabelecer ali um oratório, na sequência das edificações em Goa e Cochim.

O rei começou por impedir este intento, mas em 1542 os frades já se tinham estabelecido e, três anos depois, o novo custódio da ordem veio do reino com autorização para o efeito.

Em 1549 a obra estava quase acabada, aprovando‐se em capítulo estabelecer ali um colégio.
Dez anos depois, o complexo era constituído pelo Mosteiro de São Francisco e pela Igreja de Santo António.
Implantava‐se na extremidade oeste da povoação, junto à muralha exterior e ao fosso.

O desenho de Pedro Barreto Resende no relatório de António Bocarro evidencia o engrandecimento do conjunto, com a ereção de um claustro, provavelmente levantado após o encerramento da porta da fortificação que ali existiu.

Quanto à povoação original, na extremidade da península, foi desaparecendo paulatinamente, talvez devido à exposição às intempéries, a ponto de nas primeiras décadas de Seiscentos a Ermida de Nossa Senhora da Vitória, acrescentada de uma torre sineira e aparentemente renomeada Nossa Senhora dos Milagres, se implantar isolada em espaço ermo. Ainda na primeira metade do século XVI alguns portugueses foram habitar para fora do recinto militar, juntamente com os indianos convertidos.

Em 1519 era difícil acoitar tanta gente no espaço intramuros e quatro anos depois, quando se iniciou a construção da igreja principal, foi necessário derrubar casas para implantar o novo edifício, evidenciando a extrema densidade do espaço habitado entre a torre de menagem e a muralha e fosso exteriores.

Existiam então vinte e cinco casados portugueses, com setenta crianças, mas naquele ano tinham ali invernado mais de duzentos portugueses, habitando também setecentos “cristãos da terra”.

Em meados desse século, Gaspar Correia representou uma linha de casas térreas fora da fortificação, bordejando a baía, e um local de desembarcadouro, espaço demarcado pela presença de cruzeiros.
Contudo, certamente pela falta de separação física deste arrabalde face ao povoado muçulmano – o denominado bazar dos mouros – que se firmava em zona contígua também na orla marítima, este espaço foi queimado em data anterior a 1554, levando à morte de alguns dos seus habitantes e lançando os sobreviventes na miséria.

Cinco anos depois já existiam “tranqueiras que cercavam a povoação de fora”, segundo Diogo do Couto, confirmando a organização de um espaço urbano exterior à fortaleza protegido por estruturas defensivas, mesmo que frágeis, embora os seus habitantes não combatentes recolhessem à fortaleza nos tempos conturbados.

Este aglomerado, como primeira linha defensiva do estabelecimento português, continuou a ser fustigado por escaramuças orquestradas pela comunidade mapila, liderada por Ali Rãja, havendo notícias pontuais de que os muçulmanos lograram queimar parte das casas aí existentes, por exemplo na década de 1630.
Nessa data era uma povoação com casas de pedra e cal, telhadas e circundadas por hortas e quintais “muito largos”, com pouco menos de 1.500 metros de perímetro. Cananor nunca dispôs de verdadeiro estatuto urbano, sendo nomeada fortaleza, nunca vila.
O impulso inicial de povoamento em torno da fortaleza não deu lugar à constituição de um aglomerado significativo.
Os europeus permaneceram confinados a uma pequena península. Era uma posição que se justificara inicialmente pelo trato de gengibre, produto que tendeu a sofrer grande concorrência de outros mercados coloniais, pelo que a presença portuguesa se justificou sobretudo por razões estratégicas, relacionadas com a tentativa de controlo das operações das comunidades muçulmanas do Malabar.

 

fonte
HPIP

 

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