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BOMBAIM (Mumbai)

BOMBAIM (Mumbai)

  • Local: mumbai
  • Categoria:
  • Visita: 20 Nov, 2015

Como se de um conto de fadas se tratasse, quando habitualmente se aborda a história de Bombaim – hoje Mumbai, Mumbaim ou Mombaim em muitos documentos e cartografia portugueses – começa‐se com o relato de um dote, o de D. Catarina de Bragança por ocasião do seu casamento com Carlos II de Inglaterra, contratado em 1661 e celebrado um ano depois. Nesse dote estavam incluídas duas posições portuguesas, Tânger e Bombaim. É isso que encontramos nos guias de viagem, nas crónicas inglesas, nos panfletos turísticos, etc.
Numa perspectiva mais aberta não é mentira, apenas uma verdade mitigada sobre o arquipélago, hoje assoreado em península, que tomou o nome da ilha que João de Barros batizou a partir do nome da deusa Mumbadevi, adorada pelas comunidades autóctones de kolis (pescadores). Mas os portugueses, cujas naus cedo ali começaram a proteger‐se dos rigores do mar e a fazer aguada e outras provisões, chamaram‐lhe também, enfaticamente, Ilha da Boa Vida. Em todas as ilhas, além de aldeias de pescadores e de um conjunto decadente de tanques e grutas de culto hindu, apenas a cidade de Taná era, no fundo da baía, uma preexistência relevante do ponto de vista da urbanidade e do edificado.
Por si só, a história da Ilha de Bombaim antes da soberania inglesa até não terá muito que seja digno de especial registo. Talvez apenas o facto de ali ter residido Garcia de Orta (1500‐1568), o célebre médico e cientista português do Colóquio dos simples e drogas he cousas medicinais da India…, cuja Casa Grande acolheu a sede de poder inglês. Segundo uma tradição, dela conservar‐se‐á pelo menos um relógio de sol que, contudo, tem inserido o brasão de um governador inglês… Significativamente, em quase todas as abordagens este relógio é o bem que representa um tempo do qual raramente se quer saber algo mais, o tempo de BBB, Bombaim antes dos Ingleses…, designação de um projeto de investigação referenciado na bibliografia, de cujos resultados saiu toda a informação que aqui se sintetiza.
Porém, a Bombaim a que aquelas abordagens se referem foi desde cedo mais do que aquela ilha na entrada da baía do mesmo nome, uma das sete que então a fechavam por oeste. Em muitas delas, a presença portuguesa deixou marcas bem mais significativas e influentes na contemporaneidade que o hipotético relógio de sol de Garcia de Orta. Nos textos de contextualização inicial desta sub‐região foram já registados alguns dados sobre o espaço geográfico e o processo histórico português – designadamente do padroado – no que hoje é a área metropolitana de Bombaim, a Greater Mumbai, que de forma grosseira se delimita entre a ponta de Colaba (sul) a Gorbandel (a norte, frente a Baçaim), a Taná e Caranjá (a nascente).
Importa ainda referir que, face à extensão atual de Bombaim, que inclui núcleos que durante a soberania portuguesa estavam separados, os respectivos edifícios e raras estruturas urbanas dignas de nota são também autónomos. Se aqui nos ativéssemos apenas à original Ilha de Bombaim e ao que nela resta de vestígios da soberania portuguesa, além da referência ao relógio de sol nada mais poderíamos acrescentar, uma vez que não é possível entrar no perímetro militar (a Base Naval de Bombaim), onde se encontra. Mas fotografias de há cerca de um século permitem suspeitar que ainda ali poderão existir mais alguns elementos da Casa Grande de Garcia de Orta. Outras construções de origem portuguesa, como igrejas, já há muito desapareceram ou foram substituídas, do que é bom exemplo Nossa Senhora da Esperança, erguida pelos franciscanos cerca de 1565 e que se localizava bem próximo do atual VT (Victoria Terminal), um dos dois mais importantes terminais ferroviários da cidade. Dela subsiste apenas, em Cross Maidan, o cruzeiro que delimitava o adro.
Segundo John Fryer (1672‐1681), na vila de Bombaim viviam confusedly portugueses e indianos das mais diversas castas. As casas eram pequenas, caiadas, com janelas de carepas e cobertas com colmo, com exceção para os edifícios públicos, que eram cobertos com telha. Refere ainda como na vila da ilha vizinha de Mazagão existia uma Igreja de Nossa Senhora da Glória e um santuário numa colina, bem como em outra ilha, Mahim, uma Igreja de São Miguel. Ambas as invocações subsistem em edifícios mais recentes onde, apesar de tudo, inscrições e pedras tumulares, entre outros elementos, denunciam de forma clara as origens dos templos e comunidades. São meros exemplos de situações recorrentes.
Seguindo o critério geral da obra, se ficássemos pela Ilha de Bombaim ou até adicionando‐lhe as outras seis do arquipélago, ficaríamos sem aqui poder deixar uma nota específica sobre o que da antiga soberania portuguesa na Greater Mumbai é, de facto, mais relevante: como na articulação estruturante da grande metrópole têm papel os antigos núcleos com origem ou influência portuguesa, que vão bem além do que era o perímetro da ilha e, bem assim, além do seu arquipélago de origem. Núcleos que, quando conservam vestígios arquitetónicos de origem portuguesa já identificados, são nesta obra tratados em diversas entradas com localização toponímica autónoma [e.g. Bandra, Belapur (Belaflor do Sabayo), Dongri, Erangal, Ghodbandar (Gorbandel), Karanja (Caranjá), Mandapeshwar (Manapacer), Manori, Nandakal, Thane (Taná)], mas também nos textos genéricos “Arquite‐ tura Religiosa” e “Arquitetura Militar” desta sub‐região/ secção, a Província do Norte.
O contrato de casamento celebrado entre as coroas portuguesa e inglesa incluía Bombaim no dote da princesa portuguesa, sem contudo definir com detalhe o que isso significava, o que gerou um conflito de contornos e história imbricados quando os ingleses se apresentaram no local para tomar posse. No essencial, para os portugueses o objeto do contrato era a Ilha de Bombaim, para os ingleses o conjunto de ilhas que incluía o arquipélago de sete pequenas ilhas onde aquela se insere – Colaba, Old Woman’s Island (Colaba Pequena), Bombaim, Mazagão, Worli (Varoli), Mahim, Parel – e as de Salcete, Trombay (Turumbá) e Karanja/ Uran (Caranjá), ou seja, toda a envolvente da baía que, grosso modo, hoje compõe a Greater Mumbai. Por fim, em 1665 Portugal cedeu as ilhas de Bombaim, Mazagão e Parel, o que na prática e a prazo significou ceder as referidas sete ilhas, mantendo apenas Salcete, Turumbá e Caranjá, as maiores e separadas do continente apenas por rios e canais estreitos. São aquelas sete ilhas que hoje constituem a cidade de Bombaim propriamente dita, ainda que já seja difícil distingui‐las do contínuo urbano que a rodeia, designadamente de Salcete.
Na realidade os ingleses não desistiram e não só foram desenvolvendo algumas ações de provocação, como tiraram o proveito possível da conquista marata, que culminou com a perda de toda a Província do Norte em 1740, para depois, no eclipse do poder destes nas últimas décadas do século XVIII, acabarem soberanos de todo o território até à Independência da Índia em 1947. As características de segurança intrínsecas à situação insular, aliadas à proximidade do continente e às excelentes características portuárias da baía (abrigada dos ventos dominantes e de águas profundas) determinaram‐lhe um desenvolvimento ímpar e necessariamente unitário.
O centro do poder inglês na região estabeleceu‐se na antiga casa senhorial fortificada de Garcia de Orta, que desenvolveram, cedo ganhando maior dimensão e expressão urbana e militar. Em 1687, o centro de operações da Companhia Inglesa das Índias Orientais de Surate mudou‐se para ali, sendo que as ilhas inglesas lhe foram alugadas no ano seguinte. Em 1718, o núcleo urbano desenvolvido em torno das estruturas portuguesas iniciais foi envolvido por um forte. Fort é hoje o centro do centro histórico de Bombaim e dali irradiou o processo de sprawl que, com diversas ações de aterro para ligar as várias ilhas, foi aglutinando os pequenos núcleos rurais e urbanos com marcas portuguesas, que por sua vez tinham crescido por si próprios.
Mazagão (de que subsistem algumas estruturas no bairro de Mathar Packadi), Parel, Mahim e Sião eram, nas sete ilhas, os principais núcleos urbanos com alguma relevância, uns com vocação piscatória, outros agrícola. Hoje são bairros ativos na morfologia e complexa vivência da cidade. Também aldeias de pescadores como Varoli, Girgão (de que subsistem algumas estruturas no bairro de Khothachi Wadi), Kalbadevi, Vadala e Dadar são hoje bairros da cidade. São referidas nos documentos e nos magníficos levantamentos cadastrais britânicos de Oitocentos – Thomas Dickinson (1812‐1816) e G. A. Layghton (1865‐1872) – na maior parte dos casos como Portuguese Church e Portuguese Manor.
Esse crescimento em sprawl pouco estruturado, do tipo a que o jargão especializado designa pormancha de óleo, integrou assim o que foi encontrando pelo caminho, pouco ou nada destruindo, mas transformando, ampliando, adaptando sucessivamente às novas realidades. Só de há alguns anos a esta parte, o extraordinário surto económico indiano tem desencadeado em Bombaim ações imobiliárias e de infraestruturação que, pela sua natureza, escala e dinâmica, estão a obliterar muito do que de origem ou influência portuguesas era possível encontrar no meio daquela sempre complexa e buliçosa metrópole.
O assoreamento natural e os aterros ligaram, de forma por vezes quase irreconhecível, as sete ilhas que constituem a cidade cabeça da metrópole e permanecem separadas da maior de todas, Salcete, pelo esteiro de Mahim. Entretanto ligaram‐se a Turumbá e esta a Salcete. Esta ilha é bem maior do que todas as demais e está separada do continente por um rio‐canal, o Ulhas, que em tempos permitia a sua circum‐navegação, ou seja, da baía até ao mar por norte. Foi no ponto mais estreito desse canal, hoje assoreado, que se desenvolveu o primeiro pólo regional, Taná, uma antiga capital regional e próspero centro de produção de têxteis, de que os portugueses se assenhorearam a partir do acordo de 1534, que lhes concedeu a soberania da região da cidade de Baçaim. Esta foi uma cidade que desenvolveram a partir de uma feitoria implantada da banda norte da barra daquele rio.
Não só pela sua dimensão e relevância económica, mas também pelo facto de a soberania portuguesa ali se ter mantido por mais três quartos de século, Salcete é, em toda a Greater Mumbai, a área que conserva mais elementos edificados de origem portuguesa. Era uma ilha rica e bastante povoada, aliás dotada de diversos conjuntos de templos, tanques e grutas sagradas de culto hindu, com especial destaque para as que hoje se encontram dentro do grande parque natural de Kanheri, a única grande área dentro da Greater Mumbai que não está e não será urbanizada. Em Salcete persistem grandes comunidades católicas, sendo talvez o seu principal centro Bandra, no extremo sudoeste da ilha. Mas em Ambolim, Daravi, Erangal, Gorai, Gorbandel, Goregão, Madh, Marol e Versova sucede o mesmo, e por ali existem ainda relevantes testemunhos edificados da sua origem.
Por substituição, um número considerável de espaços sagrados hindus foi local de fixação da missionação do Padroado português, aqui especialmente protagonizado por franciscanos e jesuítas, que também fundaram igrejas junto das aldeias de camponeses e pescadores. Também os foreiros portugueses – nem todos reinóis, pois muitos deles eram goeses a quem o Estado da Índia assim reconhecera serviços – ergueram casas ou torres, porque a isso eram obrigados pelo estatuto da sua concessão. A coroa considerava essa, a milícia, uma das melhores formas de segurar o território, o que dava origem a que muitas dessas casas, como aliás também alguns conventos e igrejas, fossem fortificadas.
A tomada de soberania pelos ingleses e maratas forçou os portugueses a retirarem‐se do território, o que foi extensivo ao clero. No entanto, a medida não abrangia os indianos, e assim a presença do Padroado manteve‐se. No texto de enquadramento deste volume, a questão do conflito entre o Padroado e a Propaganda Fide para a jurisdição do espiritual católico no que é hoje a Greater Mumbai foi já suficientemente caracterizada. No entanto, faltou dizer que muitas das igrejas portuguesas foram sendo paulatinamente substituídas por outras, por vezes mudando a invocação, o que hoje dificulta a respectiva localização. São muitos os casos e, assim, não cabe aqui a sua listagem. De qualquer das formas, o mapa em anexo dá‐nos uma ideia da sua quantidade e densidade, a qual por vezes teve implicações toponímicas. Note‐se, por exemplo, como até há relativamente pouco tempo o aeroporto internacional de Bombaim tinha como designação a do local onde se implantou: Santacruz.
Além das casas, conventos e igrejas fortificados, a segurança do território era provida com uma rede de torres e pequenos fortes, dos quais subsistem elementos com presença assinalável, por vezes profundamente transformados pelos ingleses. Bandra, Madh, Dongri, Versová, Belaflor do Sabaio, Colaba, Caranjá e Taná são alguns dos seus locais, lista sempre conspícua, sendo que o último é, por certo, o mais impressionante, em especial se relacionado com o conjunto de estruturas mais pequenas, dispostas sistemicamente ao longo do rio. São marcas indeléveis na paisagem da Greater Mumbai, tal como os dois grandes eixos de acesso viário ao centro da cidade, no extremo da península que hoje é aforma urbis de Bombaim. Resultam do cerzir sequencial das vias que inicialmente atravessavam as ilhas e eram marcadas quase sistematicamente pela implantação dos templos católicos. Ainda atualmente quando, por exemplo, os percorremos no táxi que nos leva do aeroporto ao centro, vamos passando sucessivamente pelas igrejas que substituíram as que os agentes do Padroado ali foram erguendo.
Espera‐se que, uma vez lido este texto – e, essencialmente, observado o mapa que para ele se elaborou, onde as seis dezenas de itens assinalados correspondem a elementos que, adulterados, arruinados ou renovados, existem – essa percepção deixe de ser inocente, passando‐se a sentir o quanto a antiga soberania portuguesa marcou a paisagem e a estrutura urbana de uma das mais fascinantes metropoles da Ásia. Espera‐se pois, que para além do dote de D. Catarina de Bragança ser o tema de abertura de qualquer abordagem à história de Bombaim, se perceba que, através dele, também a futura metrópole foi dotada de um indelével conjunto de marcas de origem portuguesa.

fonte
HPIP
Walter Rossa

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