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BAÇAIM (Vasai)

BAÇAIM (Vasai)

  • Local: vasai fort
  • Categoria:
  • Visita: 20 Nov, 2015

São raras as cidades urbanisticamente fundadas ou estruturadas pelos portugueses que completaram o seu ciclo de vida, mais ainda se tiveram uma prestação comparativamente relevante. Assim aconteceu com Baçaim, versão portuguesa de Vasai (Baçaim de Cima). Na prática foram apenas dois séculos (1534‑1739), uma vez que antes e depois da vivência portuguesa a consistência e a relevância urbanas nunca ali coexistiram. Desde logo e em suma, se existiu uma cidade exclusivamente portuguesa no Oriente essa foi, decerto, Baçaim.
Tudo isso foi reforçado precisamente pelo facto de ter sido abandonada e se ter mantido selvaticamente desocupada até há muito pouco tempo, como se se tivesse mantido portuguesa enquanto se arruinava. Ganhou, aliás, o estatuto local de cidade fantasma, para o que contribuiu de forma determinante o considerável conjunto de lápides funerárias que permaneceram no solo das igrejas. Nelas lemos o estatuto senhorial dos seus moradores, o que levaria o padre Manuel Godinho a escrever em 1655 serem “em Baçaim tantos os dons, assim de homens, como de mulheres, que vieram a chamar a aquella cidade dom Baçaim […] 300 fogos de portugueses, cristãos naturais 400”. É um epíteto que a história confirma, pois a cidade foi cabeça de um território – a Província do Norte – no qual os portugueses, pela primeira vez fora da Europa, desenvolveram uma ocupação terratenente de matriz feudal. Mas nisso teve papel crucial a Igreja, e não apenas uma fidalguia embarcada.
Não foi obra do acaso. Ao longo da longa governação de Nuno da Cunha (1529‑1538), foi evidente como a consolidação e fortalecimento do ainda imberbe Estado da Índia passava, em muito, pelo fortalecimento da capitalidade de Goa e obtenção de território que não só pudesse fornecer bens básicos de subsistência, como terra que sedimentasse uma estrutura nobiliárquica de apoio. Contingente que de forma alguma seria exclusivamente português, integrando também goeses das castas mais altas. Um tipo de miscigenação que não é habitualmente referido enquanto tal e que se intensificaria em Goa a partir de 1543, com o crescimento do seu território bem para além da inicial Ilha de Tiswadi.
No processo de ocupação daquele território, após a instalação em Chaul e o assédio a Diu, foi determinante a pressão que o império mogol simultaneamente exercia sobre os domínios gujarates do sultão Bahadur, pois isso levou‑o a procurar uma aliança com os portugueses após um primeiro ataque e razia em 1529, seguido de outro a 20 de janeiro de 1533. A pedra de toque dessa aproximação foi a cedência dos domínios do território de Baçaim e, menos de um ano depois, a autorização para uma instalação fortificada em Diu e também junto à feitoria entretanto erguida a cerca de três quilómetros a sul da cidade de Vasai, sobre a margem norte do Rio Ulhas. No seu todo, Vasai era também uma ilha, separada do continente por um canal norte‑sul que unia aquele rio ao Vaitarna, a norte. O episódio da tomada de posse do território correspondente, em dezembro de 1534, é simbólico e praticamente único na história da presença portuguesa no Oriente, pois consistiu num autêntico ato de prestação de vassalagem.
Nuno da Cunha fez‑se representar por Martim Afonso de Sousa e outros oficiais, incluindo o futuro feitor. Segundo Gaspar Correia, em Lendas da Índia, o representante de Bahadur chamou a Vasai “todolos tanadares das terras, e a todos mostrou a chapa do Badur que mandava que todos avião d’acudir com as rendas ao feitor, que lho mostrou, e em todo lhe avião d’obedecer como fazião a ElRey; o que todos a huma voz outorgarão, pondo as cabeças no chão, e cada hum meteo na mão do feytor hum raminho d’erva cheirosa, ou froles, em sinal de obediência.” Os chefes locais da área dominada pela cidade‑porto de Baçaim colocaram-se assim sob vassalagem portuguesa. Na realidade, a estrutura socioadministrativa existente era e permaneceu feudal. O tipo genérico para a unidade base da estrutura fundiária era o prazo, figura institucional senhorial muito semelhante à preexistente. Pela primeira vez no Oriente, os portugueses tinham rendimentos da terra.
Entre as anexações de Manora e Açarim (1556) e a cessão em dote à coroa inglesa das ilhas de Bombaim, Mazagão e Parel (1661‑1665), os limites do distrito de Baçaim sofreriam variações irrelevantes, apesar dos constantes conflitos diplomático‑militares com os vizinhos. Em 1557, a ocupação de Damão e a correspondente anexação dos territórios que compuseram o seu distrito consubstanciou a formação da Província do Norte, da qual Baçaim era a cabeça, a Capital do Norte. Para tal e como tal fizera-se cidade pois, a exemplo do que já sucedera em Cochim e Chaul e viria a acontecer em Damão, os portugueses não se instalaram na Vasai preexistente. Eram posições negociadas e autorizadas, não conquistas, do que são boas provas as garantias de manutenção de liberdade religiosa.
Continuando com o revelador discurso de Gaspar Correia, sabemos que desde logo Martim Afonso de Sousa ordenou a construção da feitoria no “lugar mais convinhavel pêra depois se fazer fortaleza, como se fez, porque do mar entrava hum esteiro pola terra, e fazia volta, que ficava como ilha. No qual logar fez huma grande casa com grande alpendere, e diante grande terreiro cerquado d’estacada, e entulhado, que ficava hum tavoleiro alto; e junto da casa outras, assy grandes, pêra alojamento de mercadarias; e fez casas pêra officiais, e pêra cem homens que avião de ficar ally com o feitor, porque ouve pedra e cal e muyto aviamento pêra isso: o que tudo foy cerquado de grossa estacada, e per dentro valados; onde a gente da terra acodio com cousas de comer a vender, em que se fez bazar, e botiqueiros canarys, e começou a crecer povoação, porque a gente daterra achavão nos nossos mais larguezas que nos mouros, e começarão acodir ao feytor com as rendas, em que o dinheiro foy muyto mais do que cuidou.” Assim floresceu Baçaim, ganhando a forma que, numa sua primeira representação iconográfica, Gaspar Correia juntou à sua narrativa.
Porém a essência da imagem urbana definitiva, até hoje patente no local, só ficou completa com a muralha abaluartada que, a partir da década de 1550, a foi envolvendo e destacando ainda mais do território circundante. Conforme já Gaspar Correia relatara, a cidade desenvolvera‑se sobre uma quase‑ilha no sul da Ilha de Vasai, uma vez que de sudoeste era limitada por mar, de sudeste pelo Rio Ulhas (hoje a praia está populosamente transformada na aldeia de pescadores e marnotos, da casta koli, Vasai Koliwada) e de nordeste por um esteiro que chegava a inflectir e a proteger parte da frente noroeste. Tudo numa configuração que lembra Chaul. Da muralha dá conta a entrada seguinte, sendo que aqui nos importa levar em linha de conta que envolveu a totalidade da cidade existente, mas também uma ampla área alagada a nordeste – cerca de um terço do total – na qual não só existia pesca, mas também se podia cultivar arroz.
Os outros dois terços eram a cidade em si, centrada na fortaleza inicial e na grande praça anexa. Ainda através de Gaspar Correia, confirmado por Castanheda, e apesar do que depois relata no trecho atrás transcrito, sabemos que, após um primeiro ataque e saque em 1529, os muçulmanos haviam iniciado a construção de estruturas defensivas no local, designadamente uma tranqueira e um forte, que os portugueses destruíram na incursão no dia de São Sebastião de 1533, pois “el Rey de Cambaya começava de fazer outro Diu”. Não sabemos até que ponto as ruínas dessas estruturas terão ou não sido aproveitadas posteriormente, como tantas vezes sucedeu, mas há fortes indícios dessa reconstrução/reutilização.
Castanheda relata que logo após a posse em finais de 1534 “mandou o governador fazer hua casa forte por não poder fazer logo a fortaleza, & esta serveria de feitoria”. Como vimos há pouco, menos lacónico foi Gaspar Correia. Logo no ano seguinte, e marcando o futuro centro urbano, foi erguida a igreja paroquial de Nossa Senhora da Vida. Numa cerimónia específica em março de 1536, Nuno da Cunha determinou o lugar e deu início à construção de um forte. Segundo Castanheda, “E por fazer honra a Antonio galuão […] quando ouve de abrir os alicerses da fortaleza, mãdoulhe que desse as primeiras enxadadas, & posesse a primeira pedra, estãdo hi Garcia de saa [primeiro capitão de Baçaim], & outros muytos fidalgos”.
A construção do Forte de São Sebastião levou três anos, tendo sofrido diversas obras posteriores, designadamente a construção em 1606 de um portal clássico monumentalizante. A rara forma do seu perímetro – um pentágono irregular com três baluartes cilíndricos, entre si quase equidistantes, e um arremedo de torre de menagem, que também funcionou como tronco – parece indiciar o aproveitamento de pré‑existências, tal como o poço/cisterna que ainda hoje serve a população de Vasai Koliwada e, senão todos, pelo menos o baluarte que divide os dois paramentos do lado norte. A nascente e no interior ergueu‑se a residência inicial do capitão. A poente, mas de fora e com uma implantação intrigante, surgiria pelos meados de Quinhentos a Igreja da Misericórdia que surpreendentemente tinha um dos acessos dando diretamente para o recinto do forte. No quarteirão, fronteiro desenvolver‑se‑iam as respectivas dependências assistenciais, as quais incluíam uma capela.
Por ordem de D. João III ao vigário‑geral de Goa e sobre um templo preexistente, em 1547 foi erguida em posição ribeirinha com a cabeceira contígua à feitoria (que por sua vez seria transformada em celeiro público) a Igreja Matriz de São José, curioso exemplar de nave única com torre/fachada axial sobre nártex. A renovação implementada pelo arcebispo Frei Aleixo de Meneses, durante a visita pastoral que realizou à Província do Norte em 1598, obra concluída em 1601, dotou o conjunto de uma escala e lançamento pouco comuns. O que resta da torre ergue‑se ainda a bem mais do dobro da altura do posterior muro defensivo adjacente, rematando-se em plano horizontal e com uma balaustrada em grade. É, sem dúvida, um exemplar raro entre a arquitetura portuguesa e com uma presença marcante na paisagem urbana. Era frequentemente designada por Sé, pese embora o facto de Baçaim não ser sede episcopal.
No extremo oposto da cidade, e no mesmo ano, os franciscanos abriram num edifício modesto um colégio. Ao lado, iniciaram a construção do Convento de Santo António, que, no essencial, ficou pronto numa década. É o conjunto conventual que, pese embora o adiantado estado de ruína, mais tem atraído os visitantes, até porque ainda possui um considerável número de pedras tumulares. Urbanisticamente relevante é a expressiva citação da galilé com terraço superior de São Francisco de Évora, que dava acesso ao templo e servia a portaria do convento e do colégio.
Daí caminhando em direção ao centro pela rua paralela ao perímetro sudoeste da cidade, encontramos o pouco que resta da casa agostinha. Na já referida visita apostólica de Frei Aleixo de Meneses, membro daquela congregação, receberam da arquidiocese a Igreja da Anunciada, a que de imediato acrescentaram as dependências conventuais, tudo comprimido entre franciscanos, muralha e jesuítas. O conjunto edificado destes – o Colégio Jesuíta do Sagrado Nome de Jesus – detém a frontaria de traça mais erudita da cidade e uma das arquitetonicamente mais importantes de todas quantas sob dominação portuguesa se ergueram na Índia. A Companhia decidiu instalar‑se em Baçaim em 1549 durante uma visita, a terceira, liderada por São Francisco Xavier que, aliás, em 1631 viria a ser nomeado padroeiro da cidade, substituindo São Sebastião. A construção do complexo só seria levada a cabo entre 1561 e 1563, ou seja, a par com a da muralha. A articulação dos módulos fundamentais do conjunto, igreja, colégio e retiro, é denunciada na organização da praça fronteira, uma das mais vivenciadas da cidade.
Contudo, no que respeita a tamanho, é o último dos conjuntos conventuais – o dominicano – o mais expressivo. Instalaram‑se em 1564 no limite edificável nordeste, a meio da cidade, ou seja, sobre a praça principal. É a única grande estrutura religiosa afastada de elementos defensivos, o que se explica pelo facto de, ao contrário das demais, ter sido iniciada com a muralha já cordeada. Igual sucedeu com os hospitalários de São João que, como em Damão, chegaram para substituir a Misericórdia na sua componente hospitalar. De forma modesta, instalaram‑se a norte.
O complexo dominicano e o Forte são as balizas essenciais do lugar central da cidade, a praça, não apenas pelas funções específicas do tipo ou dos equipamentos em presença, mas também pelo seu claríssimo papel de charneira na morfologia da cidade. Imediatamente a sul do convento ergueu‑se o Palácio do General do Norte, com a sua fachada principal organizada no piso inferior segundo nove portas sem hierarquia, a que correspondem no piso superior os elementos de uma arcaria delimitando um generoso e profundo balcão.
A uma centena de metros e olhando o nascente, opunha‑se‑lhe a Casa de Câmara e Cadeia, com construção epigrafada para o ano de 1639 e partido arquitetónico semelhante, mas em cinco módulos e arcaria no piso térreo, tudo de menor proporção. Ao centro, mas descaindo um pouco sobre o cilíndrico baluarte nordeste do Forte, erguia‑se, imprescindível, o símbolo urbano do poder: o pelourinho. Sobre o norte organizava‑se o mercado, sendo muito provável que o Bazar do Peixe, já quase sobre a reserva setentrional, contasse com uma estrutura edificada. Em posição que se desconhece, construiu-se em 1611 a Casa da Moeda.
Em perfeita articulação com as vias que partiam da ribeira e atingiam a praça, ruas tendencialmente retas estruturaram a noroeste uma malha de hierarquia rua/travessa de trinta e seis e vinte palmos, respectivamente. Assim se vislumbra um processo de racionalização do traçado urbano semelhante às criações e ensanches urbanos realizados em igual período por todo o universo português. No primeiro relance para uma próxima análise morfológica desse partido urbanístico, assumiram evidência não só as duas ruas que acediam à praça de sudeste e sudoeste, tendo no seu enfiamento a Casa de Câmara (a dos Ourives) e o Palácio do Governador (a dos Casados), mas também a implantada mais a sul, a Rua de São Paulo, pois sendo a única a não passar pelo largo, ligava a ribeira com São José, a porta do Forte, o Hospital dos Pobres e o conjunto conventual sudoeste.
Importantes eram ainda as ruas que ligavam a praça ao terreiro de São Francisco junto à Porta de Terra, a Rua Direita que enfiava opostamente as frontarias das igrejas da Misericórdia e de Santo António, a dos Nobres, que partia entre a Misericórdia e a Casa de Câmara e Cadeia e tinha a meio curso a Casa do Sal, erguida em 1617. Note‑se a vincada intencionalidade urbanística no cordeamento das ruas em função das frontarias de importantes edifícios públicos. Igual sucedia a partir da fachada principal da igreja dominicana de São Gonçalo.
Baçaim tinha as ruas pavimentadas, caso único entre as cidades portuguesas no Oriente, e três cisternas abastecidas de barco a partir das nascentes puras da outra margem do rio, para além de vários poços que ainda hoje servem. Estas infraestruturas eram o resultado ou corolário de um espaço público com características únicas em todo o Estado da Índia e que é essencial para a compreensão global da urbanística portuguesa. Ainda em 1726 comentava o deão da Sé de Goa, Henrique Bravo de Morais, nasNotícias do Arcebispado de Goa, que Baçaim era “uma das mais limpas [cidades] que hoje temos neste Estado, onde não se acham pardieiros como em Chaul, nem monturos como em Goa.”
Confrontando as múltiplas descrições com os vestígios existentes e descontando algo por conta do mito e dos incontornáveis encantos das ruínas, no seu todo a arquitetura seria de uma qualidade equiparável aos melhores recantos ou conjuntos portugueses de então (ver entradas relativas a algumas das ruínas). As questões fundiárias e, assim, socioeconómicas serão a melhor forma de compreender e explicar o investimento numa arquitetura e num espaço urbano qualificados. E para tal recordemos como Baçaim foi sempre um dos postos mais rentáveis de todas as posições portuguesas no Oriente.
Mas é também necessário levar em linha de conta que em 17 de maio de 1618 a cidade foi vitimada por uma catástrofe natural de consideráveis proporções. Uma terrífica tempestade seguida de terramoto e maremoto arrasaram a maior parte dos seus edifícios. Manuel de Faria e Sousa na Ásia Portuguesa – onde, aliás, data o acontecimento de 15 de agosto – lista dois mil mortos na povoação e na veiga e refere que “quase todos os templos foram deitados por terra”. A descrição publicada dois anos depois em Lisboa considerou o acontecimento castigo divino pelos excessos imorais na vivência da cidade e região. Contudo, a prosperidade económica conduziu a uma reconstrução relativamente célere que, por certo, não só atualizou como apurou a qualidade do edificado.
Note‑se, entretanto, que quando assim se caracteriza a cidade de Baçaim não se têm como referência edifícios de grande escala ou impacto estético polarizando sistemas urbanos, mas uma determinante harmonização, um equilíbrio, entre edifícios privados e equipamentos públicos e civis, para o que concorria a existência de uma sensível diferenciação de sectores.
Com menor artificialidade também internamente se definira o zonamento. O setor inicial, compreendido entre o Forte e a Alfândega e a meio do qual surgiria na muralha a Porta do Mar, agrupava pequenas comunidades de comerciantes e artífices, o que aliás definiu a toponímia (ruas dos Ourives, dos Sapateiros, etc.). Para aí adivinha‑se um traçado urbano algo difuso, com bem prováveis menores dimensões dos lotes e opulência arquitetónica. Entre o Forte e a Porta de Terra desenvolvia‑se o sector preferencialmente residencial, de maior regularidade e constância de traçado e onde as ruínas indiciam lotes mais generosos. Maioritariamente se ergueriam, em ruas como a dos Casados e dos Nobres, as casas dos fidalgos de Baçaim, algo repetitivas nos seus sobrados, amplos balcões, varandas e grandes vãos com gelosias e/ou caixilhos de carepas. Era esse bairro delimitado a sul por um cordão de instituições conventuais adossadas à frente marítima da muralha.
Paisagisticamente, o conjunto urbano era imponente, com edifícios na ordem dos oito a dez metros de altura média, igrejas com cornijas ou beirados a doze ou quinze metros e torres atingindo os vinte ou trinta. Tudo bem acima das muralhas, que têm em média nove a dez metros de altura e os muros do Forte de São Sebastião apenas metade.
Apesar dos estragos produzidos pelo terramoto de 1993, à data da nossa última visita a ruína, em 2007, era ainda imponente. Desde então, contudo, tem sido objeto de um programa de refuncionalização como atração turística, que não tem ido no sentido da valorização e salvaguarda, pese embora estar sob a alçada do Archeological Survey of India. O conjunto foi há muito esventrado por um arruamento este/oeste cuja implantação não é inocente e levou à demolição da muralha em dois pontos. Ao longo dessa via, para além de ter sido erguido um monumento a Chimaji Appa – o conquistador marata – surgiram dois pequenos conjuntos habitacionais para funcionários alfandegários. No centro da antiga cidade e fora da sua lógica urbanística erguem‑se dois templos modestos, igual sucedendo a meio do sifão da Porta de Terra, obstruindo a passagem.
Junto a esses templos existe grande charco, iludindo a velha praça. É o mais expressivo símbolo da decadência a que cidade e ruína têm estado sujeitas pois foi escavado para o abastecimento de água à refinaria de açúcar que em 1852 foi instalada na Igreja e Hospital da Misericórdia e na primeira Casa do Capitão, alugados para o efeito a um major do exército britânico. Com efeito, os ingleses, além de transformarem a cidade num inacessível posto militar (1818‑1830), aceleraram a destruição dos edifícios existentes, chegando a dinamitar alguns. Isso concluiu o abandono então em curso. Ao fim de poucos anos a fábrica falia. Baçaim passara definitivamente a Fort Vasai, o fantasma da cidade.
Após a rendição portuguesa em 16 de maio de 1739, a vida urbana sob domínio marata subsistiu por escassas décadas. A cidade passou a designar‑se Bijapûr e foi um dos palcos e pretextos da prolongada e complexa disputa anglo‑marata. Portugal, na sequência do ímpeto que levou às Novas Conquistas de Goa e ao ensaio pombalino de reforma do Estado da Índia em 1774, chegou a armar uma esquadra para recuperar a cidade, mas a Companhia Inglesa das Índias Orientais antecipou-se e a iniciativa foi gorada face à perspectiva de um embate insustentável. A queda de Baçaim e da Província do Norte fazia parte de uma conjuntura bem mais ampla e geograficamente extensa. Era o longo reajuste do Império face à nova realidade do Antigo Regime e do Novo Mundo, do qual o reformismo pombalino foi corolário e, simultaneamente, ocaso.
Nesse tipo de processos, o abrandamento da disciplina e dos costumes acaba por sempre ser causa e consequência. Não deixa de ser significativo que entre os frequentes surtos epidémicos a historiografia de Baçaim, por regra, apenas destaque o de 1719 que, pese embora o considerável estrago demográfico, foi mais desastroso no âmbito moral. A cidade já então lentamente se esvaziava da população que lhe dera sentido. O território dependente, de ameaçado passara a retalhado, primeiro pelos ingleses com a aquiescência portuguesa, depois pelos maratas com a ambiguidade britânica. Os rendimentos de tipo fundiário desapareciam e com eles a motivação, a razão de ali permanecer. O modelo sociocolonial adotado e intrinsecamente implementado com a formação da Província do Norte do Estado da Índia ruía e com ele ruiu a respectiva capital.

fonte
HPIP
Walter Rossa

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Lindo dia! As flores de amanhã são as sementes de hoje! Colhe belas flores quem escolhe plantar boas sementes.
No tempo certo elas florescem! que Deus oriente as nossas decisões no dia a dia !!! Beijos meus com carinho.

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